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Um capitão à frente do seu tempo

Especial Comentários 07 de fevereiro de 2015

Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, empresário pioneiro em diversos setores da economia goiana, líder classista e agente ativo do companherismo rotariano. Este é o resumo da história do Capitão Waldyr O’Dwyer


Capitão da Reserva do Estado Brasileiro, Waldyr O’Dwyer, 98 anos, atuou na Segunda Guerra Mundial como integrante da Força Expedicionária Brasileira. Atualmente, é diretor presidente do Grupo Anadiesel S/A, concessionária Mercedes-Benz do Brasil; presidente da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil - Seção de Anápolis; e conselheiro da Associação Comercial e Industrial de Anápolis (Acia), da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Mecânica e Material Elétrico de Anápolis, além de membro efetivo do Rotary. Capitão Waldir recebeu em sua empresa, o diretor geral do CONTEXTO, Vander Lúcio Barbosa, para esta entrevista especial.
CONTEXTO: Capitão, o senhor é natural de onde? Quem foram os seus pais?
Capitão Valdir: Do Rio de Janeiro. Meus pais se chamavam Pedro e Guiomar. A descendência da família O'Dwyer é irlandesa, mas meus pais nasceram no Brasil. E eu fiquei no Rio de Janeiro até os vinte anos quando fui convocado para a Segunda Guerra Mundial.
CONTEXTO: Como foi sua infância e a sua juventude, antes de entrar para as fileiras do Exército?
Capitão Valdir: Tinha uma infância comum, como toda criança. Cursei Academia de Comércio do Rio de Janeiro, diplomando-me bacharel em Ciências Políticas e Econômicas. Quando iria exercer a profissão, fui declarado aspirante a oficial porque eu tinha feito também o Curso de Preparação de Oficiais da Reserva. Logo fui promovido a segundo-tenente no primeiro Regimento de Infantaria, integrando-me em definitivo no Exército. Na juventude fui um dos destaques do time de vôlei do Fluminense.
CONTEXTO: O senhor viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial. Como é passar por esta experiência?
Capitão Valdir: Houve um chamamento de oficiais, como voluntários. Apresentamo-nos para ir à Itália. Fui com o espírito patriótico combater o bom combate. Na Itália, tivemos a infelicidade de encontrar o frio entre 12 e 15 graus. E estranhamos, pois não estávamos com uniforme de inverno. Apesar de todos os contratempos, da falta de preparo para combates naquela situação, tivemos a satisfação de fazermos a tomada do famigerado Monte Castelo. Então, de todos os meus ensinamentos, o mais gratificante, embora tenha sido o mais dolorido, foi o de tomar o Monte Castelo, que era uma questão de honra para o exército brasileiro.
CONTEXTO: Em sua opinião, que lições o brasileiro pode tirar desta guerra?
Capitão Valdir: Que o brasileiro é um bom soldado. Eu tive o privilégio de ver isso. Considerados inativos, meio malandros, o soldado brasileiro teve uma brava atuação. Eu não vi nenhum brasileiro covarde, se esconder, nada disso. Em todas as missões que participei, eles estavam sempre prontos para ir ao combate. O soldado brasileiro se adaptou muito rapidamente ao armamento do Exército Americano que recebemos na própria Itália. E com uma destreza enorme o brasileiro se adaptou àqueles novos apetrechos de guerra.
CONTEXTO: Vamos falar de coisas mais amenas. Como se deu a vinda do senhor para Goiás?
Capitão Valdir: Terminada a Segunda Guerra fui para Santos, porque lá eu tinha um compromisso com uma morena muito bonita. Eu tinha prometido para ela que voltaria. Em Santos a situação era muito boa, porque eu gostava muito de praia e seus atrativos. Até que veio uma ordem do Ministério do Exército para que minha unidade fosse para Ipameri, Goiás. Embora tristes, cumprimos a ordem. Chegando a Ipameri, ao passar pela matriz da Cidade, encontrei um grupo de moças. E, entre essas uma me chamou a atenção pela sua beleza, pelo seu jeito.
CONTEXTO: Então, o seu compromisso com a tal morena...
Capitão Valdir: Esqueci a morena (risos de ambos). Pois bem, nós chegamos a Ipameri no dia em que tinha um baile, o sábado de aleluia. Eu não tinha quem me apresentasse àquela moça encantadora. Então, eu mesmo me apresentei a ela. Paixão é um negócio que a gente não entende.
CONTEXTO: Quem viria a ser essa moça, capitão?
Capitão Valdir: Herta, a minha futura esposa, que era da família Leyser, tradicional da cidade. E a coisa foi tão efetiva, que cheguei lá no mês de abril e já em dezembro, eu estava uniformizado na igreja matriz me casando com minha eterna paixão.
CONTEXTO: Quais foram os frutos desse casamento?
Foram os melhores que um homem poderia ter. Eu e minha inesquecível Herta tivemos dois filhos: William (Bill) e Cinthya (falecida). Bill, casado com Anne Lotte, me deu três maravilhosos netos; a Caroline, a Stephanie e o William Albert. E a Cinthya me deu o Pedro. Da nova geração ganhei quatro bisnetos (Hertha, Vitor Alexander, Otto e Pedro). Outros dois bisnetos estão a caminho.

CONTEXTO: De militar graduado a empresário. Como se deu essa transformação?
Em Ipameri, como o mais graduado, primeiro-tenente, assumi o comando da Companhia Independente. Mas logo veio uma ordem do Exército me transferido para São Paulo. Foi aquele pânico na família da minha esposa. E o seu Gustavo, que era o pai da Herta e dono da principal empresa da cidade, a Indústria de Desenvolvimento Santa Cruz, me fez um apelo para que eu não fosse embora. E eu disse: ‘se eu não for transferido, só tem uma possibilidade: pedir demissão do serviço ativo do exército. Então ele disse: ‘a indústria está precisando de um dirigente, e eu lhe ofereço um cargo de gerente da firma’. Assim ocorreu.

CONTEXTO: E por quais razões o senhor deixou Ipameri, anos mais tarde, para se aportar em Anápolis?
Capitão Valdir: O ciclo econômico ligado ao charque se alterou, para pior.Houve o desaparecimento dos compradores, das exportações da carne desidratada. Isso se deu no país todo. Essa foi a principal razão que eu vim para Anápolis. Porque, tendo encerrado a atividade da charqueada em nossa região, eu recebi convite do Governo de Goiás para ser o diretor do Frigorífico Goiás, que hoje é onde está instalado o Friboi na Vila Fabril.
CONTEXTO: E foi neste tempo que o senhor se ingressou nas organizações que defendiam os interesses dos empresários, dando início aí, a sua carreira de líder classista?
Eu, passando a ser um empresário, fui logo convidado para a diretoria da FIEG, Federação das Indústrias do Estado de Goiás, como primeiro secretário. Conheci lá o saudoso Aquino Porto, que era um dos elementos de maior prestígio da Confederação Nacional das Indústrias, onde ele era diretor. Então, em razão de minha amizade com o Aquino, comecei a me entrosar com os empresários de todo o Brasil e, graças a Deus, tudo ocorreu muito bem.
CONTEXTO: E como surgiu a empresa Anadiesel?
Capitão Valdir: Existia a Mercedes-Benz aqui em Anápolis, que era do saudoso Derocan. Mas ele se transferiu para Goiânia e Brasília e desistiu da concessão de Anápolis. Convidado para assumir a Mercedes em Anápolis, aceitei de pronto. Eu e o Virgílio de Barros Abreu, um grande companheiro que está aqui conosco até hoje. Em 14 de março de 1963 fundamos a Anadiesel Limitada, que completou, há pouco tempo, 52 anos de existência com destacada atuação. E a Mercedes também pensa assim, tanto que nos deu novas concessões em outras regiões.
CONTEXTO: O senhor sempre acompanhou de perto o desenvolvimento econômico de Anápolis. O capitão esperava tanto para o Município?
Capitão Valdir: Considero Anápolis como um dos pontos de maior desenvolvimento do Brasil. Isso em decorrência da criação do Distrito Agroindustrial que hoje é conhecido em todo o país, principalmente pelos produtos farmacêuticos. Eu sonho ver Anápolis como um polo de maior força industrial. Porque daqui nós temos a possibilidade de distribuição para todo o Brasil. Deus colocou Anápolis em uma região central, com enorme possibilidade de comunicação para todo o Brasil. Exemplo disso é a Estrada de Ferro recém-inaugurada, mas que não está funcionando por questões que eu não entendo. Nós vamos ter aqui um aeroporto industrial. Quando isso tudo estiver formado, aqui será de fato um dos centros de distribuição mais perfeitos do país. Não tenho dúvida.
CONTEXTO: Capitão, o senhor sempre foi muito aguerrido nas atividades das quais se propôs a realizar. Por que nunca se ingressou na política partidária?
Capitão Valdir: Nunca tive essa vontade. Não que essa função não seja muito digna. O mal são as pessoas que dirigem o país. E também eu não tinha tempo para fazer política. Nunca aceitei cargo público. Certa vez houve um convite para que eu fosse a senador. Mas, logo desisti, porque o presidente do diretório exigiu que eu pusesse um avião à disposição do partido. E eu não tinha avião, nem condições de comprar avião. Então, não prosperou a ideia.
CONTEXTO: Vamos falar agora sobre outra paixão do senhor, o Rotary. Como é que se deu o seu envolvimento com essa ONG?
Capitão Valdir: Eu estava servindo em Santos. E o Rotary Clube convidou o comandante da unidade local para um almoço. Um coronel das antigas, muito fechado. Ele determinou que eu fosse representando o comando. ‘Vá fardado’, disse. A reunião aconteceu no principal hotel de Santos com a presença de renomadas autoridades da região. No encontro foram discutidas questões da segurança de Santos. Logo eu notei que aquele convite seria para que o meu comandante falasse sobre este tema. Nesta época, a guerra apavorava. Muitos já querendo se mudar de Santos com receio de uma invasão militar ali, segundo disseram. E na hora que me deram a palavra, como eu conhecia bem a situação, até exagerei um pouco, dando garantias de que Santos jamais seria invadida, porque Santos estava fora da conexão de guerra. Vinham invadir Santos para que? E foi por esse exagero de conhecimento que cai na graça dos futuros companheiros rotarianos.
CONTEXTO: O senhor é tido como o mais anapolino entre aqueles que chegaram a Anápolis. Por que o senhor se apaixonou por esta terra?
Capitão Valdir: Porque encontrei aqui o sonho da criação de um frigorífico. Na época era uma audácia muito grande montar um frigorífico. E isso em parte foi confiado a mim. Uma empresa com alto padrão, inclusive para exportação. E como disse, depois veio a Anadiesel, a Base Aérea, vi a criação do DAIA. O DAIA nasceu de uma reunião na FIEG, com a presença do Aquino Porto, um homem de inteligência privilegiada. Posso entrar nesse detalhe?
CONTEXTO: Por favor.
Capitão Valdir: O Aquino pediu uma audiência com governador do Estado, que era o Leonino Caiado, para tratar sobre industrialização do Estado. O Aquino, o Ovídio Inácio Carneiro e eu fomos ao governador, explicar a ele que Goiás precisava de distrito industrial. A princípio, o governador não gostou da ideia. Mas, em atenção ao nosso pedido, ele telefonou para o governador de Minas Gerais, pedindo informações sobre a questão de um distrito industrial. E teve informação favorável. Então, convencido, disse: ‘vocês podem tomar as providências’. Aí nós começamos a trabalhar nesse sentido. Dessa conversa surgiu o DAIA.
CONTEXTO: O que um homem as vésperas de se tornar centenário ainda vislumbra para a cidade que o acolheu?
Capitão Valdir: Sonho com o Distrito Agroindustrial de Anápolis completo. Principalmente, a Plataforma Multimodal. Já tem até o local, já está de asfalto, tem tudo. Lá, a plataforma está pronta. E quase tudo que um distrito industrial completo possa ter, já está tudo encaminhado. Nós temos até a ligação da Estrada de Ferro com terminal de cargas. Um negócio que muita gente se assusta quando a gente fala. Anápolis tem um Porto Seco, é um órgão alfandegário que arrecada... nós temos o contorno, tem Estrada de Ferro, vai ter uma pista para aviões de carga, está tudo previsto. Uma coisa fantástica que, infelizmente, por causa da saúde não estou podendo acompanhar.
CONTEXTO: Capitão, a nossa amizade, o fato de sermos companheiros rotarianos me encoraja a perguntas, talvez, indiscretas, sem rodeios. Quando o capitão partir, quando o senhor chegar aos céus, em que obra ou monumento o senhor gostaria de ver, ao olhar aqui pra baixo, o seu nome cunhado em homenagem aos seus relevantes serviços prestados a Goiás, em especial a Anápolis?
Capitão Valdir: (Risos) Você, Vander Lúcio, sempre direto, divertido... Eu não tenho, assim, pretensões quanto a homenagens. Fui um cidadão que sempre procurei servir, de realizar o que é possível realizar para o progresso da nossa cidade, para o progresso do Brasil, mas não tenho, assim, um sonho pessoal, essa vaidade. Isso, como você bem disse, está no futuro. E lá dos céus, ou de outro lugar que seja, esse futuro já não me pertencerá. Realizei porque tinha que ter realizado. Servi, porque eu tinha que servir. Então, é isso, companheiro. Avante!

Autor(a): Vander Lúcio Barbosa

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