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Quando a comida não combina com o remédio

Saúde Comentários 29 de maio de 2014

Estudos começam a mostrar como e quais são os nutrientes que interferem na ação das drogas. Dependendo da combinação, eles aumentam ou reduzem sua eficácia


Um lado menos conhecido dos impactos dos alimentos – a sua ação sobre os remédios – começa a ser mais bem estudado pela medicina. Novas pesquisas estão mostrando o poder dos nutrientes contidos nos alimentos para potencializar ou diminuir os efeitos dos remédios. Nos Estados Unidos, a preocupação levou a Liga dos Consumidores e a agência reguladora de alimentos e medicamentos, o FDA, a lançar um guia online para orientar a população. Intitulado “Avoid Food-Drugs Interactions” (evite a interação entre alimentos e remédios, em português), ele reúne as informações mais atuais desse recente campo de estudo. Uma delas é só beber leite uma hora antes ou duas depois de tomar os antibióticos tetraciclina e ciprofloxacina. A boa quantidade de cálcio encontrada nesse alimento prejudica a absorção dessas substâncias e reduz seu efeito.
Outra recomendação do guia americano é não misturar certos anti-inflamatórios, antibióticos e medicamentos cardiovasculares com queijos fermentados ou fundidos e demais alimentos ricos em tiramina, como o salame e o vinho tinto. “Isso pode elevar a pressão arterial”, explica a nutricionista Andréia Naves, da VP Consultoria Nutricional, de São Paulo.
As autoridades de saúde americanas também insistem na necessidade de evitar o consumo de mais de três doses de bebidas alcoólicas no mesmo dia em que for ingerido algum analgésico contendo ácido acetilsalicílico ou anti-inflamatórios. “Além de causar sonolência, aumenta muito o risco de hemorragia gástrica”, afirma o toxicologista Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O alerta inclui o uso preventivo de remédios contra ressaca contendo essas substâncias. Wong aconselha quem beber drinques a mais a deixar de lado o consumo de analgésicos contendo paracetamol. “Essa mistura é a principal causa de morte por hepatite fulminante na Inglaterra, por exemplo”, diz o especialista, referindo-se a uma forma aguda e grave da doença.
No Canadá, pesquisas em andamento estão mostrando mais aspectos importantes sobre as combinações entre nutrientes e drogas. Na Universidade de Ottawa, o cientista John Arnason avalia como 450 produtos alimentícios podem interferir na ação de medicamentos. Ele dirige a área de ciências biofarmacêuticas da universidade. “Há alimentos que bloqueiam a atividade de enzimas que permitem a absorção de certos medicamentos. Isso reduz a quantidade da substância que a pessoa aproveita”, disse o especialista à ISTOÉ. “Outras comidas aumentam a absorção de algumas drogas, o que pode aumentar sua quantidade circulante no sangue e levar a uma dose excessiva.”
Ele investigou também quais alimentos e ervas influenciam a ação do Tamiflu, um dos poucos remédios contra o vírus influenza, causador da gripe. Concluiu que as plantas chinesas ministradas contra a doença, a erva-de-são-joão e a goldenseal, comum no Canadá, interferem negativamente nos efeitos desse medicamento. Trabalhos feitos em laboratório com animais estão levantando suspeitas de que o chá verde e o preto podem também elevar a concentração de diversas drogas no sangue. Cervejas, pimentas e outras comidas ricas em substâncias fitoquímicas (substâncias de origem vegetal que têm ação no organismo) apresentariam o mesmo efeito.
Há novidades também em relação a algumas frutas. A grapefruit, muito apreciada nos Estados Unidos, deve ser evitada por quem toma remédios para dormir, antiviral saquinavir, ciclosporina e bloqueadores dos canais de cálcio (indicados para males cardiovasculares). Ela interage também com algumas drogas quimioterápicas. “Um copo diário impede o efeito dessas drogas”, garante o toxicologista Wong. “Novos trabalhos sugerem que sucos cítricos podem prejudicar ligeiramente a absorção de medicamentos para dormir e alguns anti-hipertensivos”, diz a nutricionista Andréia. Diante de tantas informações, o melhor mesmo é conversar com o médico para evitar que o remédio deixe de atuar como deveria.

Autor(a): Da Redação

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