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Professor Olímpio: Vida e obra de um autêntico anapolino

Cidade Comentários 21 de fevereiro de 2015

Oriundo do meio rural; professor; político; advogado, escritor e classista. Este é o resumo da história de Olímpio Ferreira Sobrinho que, se aproximando dos 90 anos, mantém uma memória plenamente saudável e relata, em entrevista concedida ao Diretor Geral do CONTEXTO, Vander Lúcio Barbosa, fatos que marcaram e, ainda marcam, a história de Anápolis, sua gente, suas instituições e suas particularidades


CONTEXTO: Conte um pouco da sua história, sobre sua infância, seus pais. Sabemos que o senhor tem uma relação direta com a história de Anápolis. Como é isto?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Minha família era do Oeste de Minas Gerais. Quando meus pais, José Ferreira da Silva e Amélia Pereira Dutra aqui chegaram, compraram um sítio próximo a Interlândia e colocaram o nome de Bom Jardim, onde eu nasci em 10 de janeiro de 1928. Sou sobrinho-neto de Zeca Batista e neto do terceiro intendente municipal, Antônio Pereira de Souza Dutra. A igreja que meu pai fundou, funciona até hoje. Inclusive, não é só igreja, mas é também uma casa de amparo para dependentes químicos. Quando eu estava completando 11 anos, papai faleceu. Então nos mudamos para a cidade, em 1938. Na igreja, minha mãe se encontrou com o Doutor James Fanstone, que era o diretor do Colégio “Couto Magalhães” que, ainda, funcionava na Rua Manoel D’Abadia. Doutor Fanstone perguntou: ‘Dona Amélia, qual é o problema da senhora?’. Minha mãe falou: ‘eu quero trabalho e meus filhos precisam de escola’. Então, ele mandou matricular os oito órfãos do meu pai, inteiramente de graça. Fiquei no “Couto Magalhães” até terminar o ginásio, em 1944.

CONTEXTO: Como foi seu envolvimento com o Colégio “Couto Magalhães”, depois a Associação Educativa Evangélica, onde o senhor foi de aluno bolsista até ser diretor/fundador da Faculdade de Direito?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Como eu estudei de graça no Colégio, nunca me afastei dele, porque o Doutor Fanstone, era exigente. Ele ajudava todo mundo. Mas, também, queria que todos trabalhassem. Para ele, o trabalho e a escola deviam caminhar juntos. Quando saí dali, para continuar o Curso do Comércio, minha mãe continuou trabalhando no internato do Couto. Todavia, nunca me ausentei do ‘Couto’ e de seus diretores. Sempre estudando e trabalhando, justamente para conservar a amizade que tínhamos com o Doutor James Fanstone, um grande benfeitor da comunidade. Entre 1945 e 1948, fui trabalhar no Banco Comercial do Estado de Goiás, que era presidido por Sócrates Diniz. Depois, passei um tempo no Banco do Estado de São Paulo. Entre 1950 e 1953, fui gerente da Caixa Econômica Federal em Anápolis. Por essa época, terminei o segundo grau na Escola Técnica de Anápolis, sendo, depois, professor e diretor dessa mesma instituição de ensino. Entre 1954 e 1959, cursei Direito na UFG. Depois de formado, pedi demissão do banco e fui trabalhar como advogado. Em 1967, recebi a visita de Richard Senn e do reverendo Archibald (Wesley Arthur Archibald), que me convidaram para ser o diretor da Faculdade de Direito, mas, eu deveria fazer todo o serviço de instalação da instituição. E, foi feito. Cuidei de todo o processo, do prédio, da biblioteca, dos professores e, no dia 28 de maio de 1968, aconteceu a aula inaugural. Aqueles primeiros alunos que entraram na Faculdade se tornaram grandes advogados, são grandes desembargadores, são juízes, são promotores. Trouxemos para Anápolis, naquela ocasião, os melhores professores de Goiás. Não só para o Direito. Mas, também, para a Enfermagem, para a Filosofia e outros cursos que ajudei a fundar com muito prazer, porque eu estava pagando um pouco daquilo que obtive desde aquela primeira matrícula, de graça, que recebi do Doutor Fanstone. Fui o diretor da FADA entre 1968-83 e 1985-95. E, guardo desse período, um tempo muito bom da minha vida, porque Deus me encaminhou de tal maneira, que eu pude vencer.

CONTEXTO: E a sua participação na política? O senhor foi vereador; deputado, prefeito, secretário. Faça um resumo de sua atividade política.
Olímpio Ferreira Sobrinho: No final de1957 foi criada em Anápolis, a UCE - União Cívica Evangélica. O professor Antônio de Oliveira Brasil, que foi, mais tarde, vereador, era o presidente, e o Henrique Fanstone, o seu vice. A UCE durou pouco tempo. Eles chegaram ao meu escritório e disseram: ‘Olímpio, viemos aqui porque você foi escolhido para ser o nosso candidato a vereador. Queremos lançar você, o João Batista Machado e o José Batista Júnior para melhorar a Câmara Municipal. Um de cada igreja. Por incrível que pareça, nós fomos os três mais votados naquela eleição de 1958. Eu era do PTB, o João Batista Machado da UDN, o José Batista Júnior, que mais tarde foi prefeito também, era do PSD. E, todos os três, mais tarde, fomos prefeitos. O João Batista Machado, em Goianápolis. Depois, em 1962, quando se aproximavam as eleições para deputado, o PTB me lançou a estadual em dobradinha com Haroldo Duarte (deputado federal). Naquela eleição eu fiquei como primeiro suplente. Mais tarde, quando veio a Revolução (1964), cassaram três deputados do meu partido e eu fui chamado para a Assembleia em 24 de agosto de 1964, para completar aquele mandato de dois anos e meio como deputado, até 1967. Depois, me candidatei pela segunda vez e foi eleito para o período de 1967-1971.

CONTEXTO: O senhor foi prefeito de Anápolis de 04 de junho de 1982 a 29 de dezembro de 1983. Como se deu isso?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Foi na época em que Anápolis era considerada Área de Interesse da Segurança Nacional (1973/1985). O Governo Militar pediu uma relação de três pessoas para ser escolhida uma. E o Ary Valadão (Governador da época) não gostava muito de mim, porque ele tinha sido deputado estadual em meu tempo. Ele era da UDN e eu do PTB. E, nós brigávamos todos os dias na tribuna. Ele escolheu o (empresário) Nilo Margon Vaz. O Nilo me convidou, inclusive, para ser o procurador dele. Eu já era procurador do Estado, e eu gosto de falar que foi por concurso de título e prova, porque quase todos os procuradores eram nomeados politicamente. Eu não. Então, o Jaci de Assis, que era o procurador-geral, foi à minha sala em Goiânia e disse: ‘O que você está fazendo aqui? Vai embora, rapaz, você foi indicado prefeito de Anápolis. O seu currículo que foi para Brasília era muito melhor que o do Nilo Margon. E, foi assim. Fui escolhido sem pedir nada a ninguém, nem ninguém interferiu por mim.

CONTEXTO: Como a Cidade recebeu o seu nome, um escolhido pelo Governo Militar, para administrar o Município?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Assumi a Prefeitura sob forte oposição. Eram os irmãos Santillo que, na época, seriam as maiores referências em oposição ao governo militar. Eles moveram uma campanha terrível contra mim, porque tinham a bandeira de acabar com o voto indireto. No entanto, quando eu asfaltei grande parte da Vila Jaiara, por exemplo, eu levei o benefício até à porta da chácara do ex-governador Henrique Santillo. Isto, para mostrar que não tinha nada contra eles. Mas, por outro lado, eu tive, também, importantes apoios para realizar o que foi possível. Deixei a Prefeitura sem grandes problemas. Graças a Deus, aquele período muito bom.

CONTEXTO: Quais foram as suas realizações como prefeito que, em particular, quais delas o senhor considera marcantes?
Olímpio Ferreira Sobrinho: A Avenida Fabril, na Vila do mesmo nome, é cortada pelo Córrego Catingueiro. Ele, todo ano transbordava formando uma lagoa imensa que impedia todo o trânsito no local. A dificuldade era que não tinha ponte. Aquela que existe hoje foi obra minha. Um trabalho grande, feito naquela região. Eu tenho também muito orgulho do Ginásio de Esportes “Carlos de Pina”, que foi, também, na minha gestão. Fiz um projeto em parceria com a empresa aérea Vasp. Eles tinham um avião que sobrevoava Anápolis, fotografando, para depois você projetar a Cidade. Muitas coisas foram feitas em cima disso, principalmente pavimentação asfáltica. Na Vila Alexandrina, também, fizemos um bom trabalho de asfalto. O projeto era o seguinte: nós íamos asfaltar todas as ruas por onde passasse ônibus coletivo. Foi um sucesso muito grande nisso. O Thales Reis, que foi meu secretário, me incentivou a criar a Paviana - Pavimentadora de Anápolis. Ele disse: ‘Nós vamos fazer isso aqui. Se todo mundo asfalta, nós vamos asfaltar’. E nós compramos vinte caminhões; patrolas, trator, tudo que foi preciso. Outra coisa: fui tímido, eu não fazia propaganda de nada. Eu preparei todo o complexo onde hoje é o Centro Administrativo. Mudamos a Prefeitura para lá e cedemos o prédio onde estávamos para a Câmara Municipal, também totalmente reformado. A Câmara não tinha sede própria. Não fiz muita coisa, mas, realizei o que os recursos permitiram. Também, com o apoio da SUDECO (Superintendência de Desenvolvimento do Centro Oeste) construí a Praça do Ancião (hoje Praça “Deputado Abílio Wolney”), na época, a mais moderna da região.

CONTEXTO: Ficou alguma coisa que o senhor gostaria de ter realizado como prefeito e não foi possível?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Em especial, não. Mas esqueci-me de relatar um grande trabalho que executamos na área da Educação, na zona rural, pioneiro na época, e que eu gostaria de tê-lo feito maior e não deu tempo. Com o apoio do Governo Federal, construímos quatro escolas nos distritos administrativos. Compramos ônibus e os professores e alunos eram buscados na roça pela manhã, almoçavam no grupo escolar e, só à tarde, retornavam as suas casas. O projeto chamou tanta a atenção das autoridades ligadas à educação que, até, o presidente da República, João Figueiredo, acompanhado de sua ministra da Educação Esther de Figueiredo Ferraz, veio a Anápolis, verificar tudo e voltou encantado. Esse trabalho, idealizado pelo René Pompeu de Pina (superintendente da SUDEC), serviu de inspiração para um projeto do Governo Federal na ocasião.

CONTEXTO: Como o senhor vê Anápolis hoje, cidade que ajudou a construir, governou e, ainda, participa ativamente de várias atividades?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Eu acho que ninguém segura Anápolis. Anápolis é uma cidade que vive por si. Ela tem uma força incrível. Agora, vou fazer uma crítica: eu olhei o quadro das pessoas que vão trabalhar por Anápolis neste novo governo do Marconi. À exceção do vereador Fernando Cunha que deixou o cargo de vereador para ocupar uma superintendência de Indústria e Comércio, são as mesmas pessoas que nunca fizeram muita coisa por Anápolis que estão lá no Governo Estadual. Os moços é que são a força da sociedade. E, tem muito moço preparado aí. Tem gente boa que poderia ser lembrada e não foi. Então, eu acredito que vai crescer, mas, pela sua força própria. Mas os homens, ainda não são, no meu modo de pensar, exatamente aqueles que poderiam ajudar mais, com ideias novas, com expectativas diferentes de tudo. Agora, sobretudo no campo da Educação, ainda há muita coisa a ser feita em Anápolis.

CONTEXTO: Fale sobre a sua participação no Lions Clube, como foi?
Olímpio Ferreira Sobrinho: Entrei a convite do Josias Moreira Braga. Em 1987-88 eu fui eleito governador do Lions, e o Josias custeou todas as despesas de minha viagem à China, onde eu tomei posse. Naquela época, o Lions era muito ativo. Mantínhamos vários projetos de cunho social. Passados esses anos, a organização perdeu força. E o Lions, praticamente, acabou. Estamos começando tudo de novo e queremos, até o mês que vem, reabrir o Lions para que ele possa continuar um trabalho que fazia em toda a Cidade. Eu tenho esse trabalho lá do Bom Jardim, em Interlândia, mas, que está precisando de muita ajuda, muita colaboração. Eu tenho o Projeto Conviver, aqui no Bairro São Carlos, que é um trabalho também da igreja. Tem muita coisa a ser feita. Eu acho que essas antigas instituições precisam ser mais vistas, mais lembradas e até mais usadas. Você vai á Maçonaria, por exemplo, é gente idealista. Você vai ao Lions, é gente idealista. Você vai ao Rotary, é gente idealista. É gente que se interessa em servir. Eles caminham sozinhos, sem nenhum impulso de governo. De maneira que eu gosto muito dessas instituições. Se fizer um estudo profundo, você vai verificar que elas ajudam o próprio governo. E, nem sempre, o Governo olha para essas instituições.

CONTEXTO: O senhor é, também, autor de vários livros. Quantos o senhor escreveu e quais são eles?
Olímpio Ferreira Sobrinho: São cinco: Canções Guardadas na Memória (1979); Meio Século Formando Gerações (1982); Sob as Luzes do Milênio (2002); A um Passo da Universidade (2004); Um Novo Tempo, Sempre (2007). Agora, estou concluindo o sexto livro. Este, quase todo, versa sobre as nossas faculdades, a UniEvangélica. Mas, nem sei se posso continuar, porque a idade está puxando muito. Estou com 88 anos de idade. Mas, se puder, ainda vou escrever mais. Sempre sobre Anápolis, sempre sobre nosso povo, sobre a nossa gente, sobre os nossos líderes. Porque a literatura é boa para isso, para exaltar a cidade, o Estado, os feitos do nosso povo, da nossa gente.

CONTEXTO: Doutor Olímpio, que mensagem o senhor gostaria de deixar para as futuras gerações de Anápolis?
Olímpio Ferreira Sobrinho: O reverendo Arthur Wesley Archibald, que foi meu chefe-orientador, tinha o lema que era: estudo e trabalho. Tem gente que pensa que se estudar, não precisa trabalhar. E se trabalhar, não precisa estudar. O estudo e o trabalho tem que caminhar juntos. Eu, toda a vida, modéstia à parte, trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Eu estudava à noite, de madrugada, final de semana e feriados. O reverendo Archibald me ensinou uma coisa. Ele disse: ‘Olha, nós devemos ter quatro períodos durante o dia: a madrugada, a manhã, a tarde e a noite. Se todos nós entendermos que nós precisamos levantar cedo, começar o trabalho, o estudo, nós vamos melhorar a nossa situação’, dizia ele. Ninguém fracassa se tiver levantando cedo, como o Rui Barbosa escreveu: ‘Madrugada, madrugada do homem banal, que compra o jornal e a notícia não lê’.

CONTEXTO: Professor, para fecharmos a entrevista, um balanço da sua geração. São quantos filhos, netos, bisnetos...
Olímpio Ferreira Sobrinho: Eu e minha esposa, Nininha (Maria Augusta Pinto Ferreira, 76 anos) nos casamos em 10 de janeiro de 1970 e formamos uma família muito unida e feliz, graças a Deus. Tivemos quatro filhos e criamos um quinto. Os filhos são: Cristiane Ferreira Santana; Andréa Ferreira Bernardes; Amélia Cristina Ferreira Fleury e José Augusto Pinto Ferreira. Desses filhos, ganhamos dez netos e estamos esperando por mais dois bisnetos.

Autor(a): Vander Lúcio Barbosa

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