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#MeToo

Edição 716 - 15 a 21 de março de 2019

O movimento #MeToo (tradução literal: eu também), surgiu em 2017 nas redes sociais e provocou a queda de mais de duzentos proeminentes líderes na vida pública norte-americana entre outubro de 2017 e outubro de 2018. O primeiro da lista a ser exposto foi Harvey Weinstein, o homem-forte de Hollywood. Até o final de 2018, cerca de noventa mulheres alegaram ter sido alvo de assédio sexual por parte de Weinstein. Destas, dezesseis qualificam o que aconteceu como estupro.
“O #MeToo combate a perniciosa tendência na sociedade atual de desmentir e desqualificar as vítimas, em sua maioria mulheres e crianças, quando estas denunciam atentados à sua dignidade sexual. O caso da ministra Damares é emblemático: um líder religioso foi protegido pela igreja causando dor incomensurável à criança” (Elsie Cunha Gilbert).
Milhares de mulheres ao redor do mundo encontraram no #MeToo uma hashtag simples e um passo corajoso para vir a público com suas histórias. Muitos homens aderiram ao movimento, declarando-se de alguma forma parte do problema por não terem ouvido as vítimas de assédio ao seu redor. O #MeToo é apontado como propulsor das mais de quinhentas denúncias de crimes sexuais, no Brasil, contra o médium João de Deus, preso em 16 de dezembro de 2018. Em 2010 já existiam acusações contra ele.
O #MeToo revela como o abuso sexual pode ser perverso. Os efeitos na psique são quase irreversíveis e irreparáveis. A pessoa vitimada, além do ódio pela sua impotência e estruturas (familiares, empresariais, eclesiásticas, sociais), carrega para sempre um senso de culpa imputada, pois embora ela seja vítima, sente-se ré achando que poderia ter reagido, feito alguma coisa. A impotência é a marca dominante na vida daqueles que sofreram violência e abusos, em grande parte acobertado por famílias, numa dinâmica de co-dependência e cumplicidade demoníaca.
Este movimento tornou-se a voz de crianças e mulheres oprimidas pelo silêncio imposto pelos poderosos, pela arrogância dos que se acham acima da lei e do julgamento, que usam seu dinheiro, poder ou influência para cometer abusos, e permitiu ainda que numa pequena escala, pessoas reprimidas pela força e violência brutal pudessem dizer. #MeToo! Eu também sofri a violência, mas eu também posso ser tratada com dignidade e valor e posso sair da condição de constante acusação para a de alguém que pode receber a simpatia e acolhimento no meio da dor.

Autor(a): Samuel Vieira