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O Poder do Nada

Edição 711 - 08 a 14 de fevereiro de 2019

Poucas vezes tive um apreço tão especial por um casal como aquele. Acompanhei o namoro dos dois, a alegria deles no relacionamento que construíram, o envolvimento pessoal, a participação da família, o planejamento. A festa do casamento foi idílica, feita com todo esmero e luxo que os pais podiam oferecer e tudo indicava um fim promissor e um lar abençoado.
Poucos meses depois, entretanto, o casamento implodiu. Parecíamos não acreditar no que víamos. Os pais tristes, o jovem casal fragmentado e diluído nos afetos e convicções, incapazes de reagir ou agir diante da frustração, e apesar dos esforços de terapeutas e familiares, o casamento acabou. Não houve segunda chance, o diálogo foi inoperante, as intervenções insuficientes.
Agora era hora de lamber as feridas e juntar os cacos. O divórcio foi assinado num tempo recorde, os móveis e utensílios tomaram o destino adequado, a conta no banco foi encerrada, as dívidas do cartão de crédito divididas entre os dois e mais um casamento entrava na triste estatística do divórcio.
Conversando com o desolado rapaz, quis entender um pouco mais dos motivos. Pareciam tão frágeis e existenciais... tão inconsistentes nas suas premissas... desejoso de ajudar a restauração busquei as causas. Quando perguntei a que atribuía o seu divórcio e indaguei os motivos, o rapaz respondeu entre atônito e filosófico: “Aconteceu nada! Nada de amor, nada de cuidado, nada de carinho, nada de proteção, nada de Deus!”.
O Nada estava devorando e vencendo!
Num antigo filme chamado “histórias sem fim”, numa das cenas principais, os personagens centrais encontram um gigante chamado “come pedra”, que está correndo de forma desorientada, assim como correm os animais, todos numa mesma direção, por causa de um cataclisma que atingia a região. Perguntaram-lhe o que estava acontecendo e ele disse: “O nada está devorando tudo!”. E eles perguntam: “O que é o nada? Um buraco?” E ele responde novamente: “- Se fosse um buraco, seria uma alguma coisa...”
Ao pensar-se no “nada”, associamos à nossa mente a ausência de qualquer coisa que seja, o vazio absoluto. O nada foi pensado como conceito pelos filósofos que questionavam inclusive se “o nada existe?”. Ao definir o nada como a ausência de qualquer coisa, então do próprio existir, Kant apresentou a existência do nada como um “pseudoproblema”, uma falsa questão. Sartre vai tratar o nada em oposição ao ser, que é o existir de algo.
É muito interessante a resposta que Deus dá a Moisés quando este deseja saber o seu nome: “Eu-Sou-o-que-sou”. Em oposição ao nada, Deus define-se como o “Eu-Sou”. O nada é a ausência do ser, de Deus. Mais que a maldade na sua forma mais explícita, que o ódio com suas manifestações de violência, as pessoas estão sendo destruídas pelo vazio, pela falta de objetivo, que desemboca no trágico: nada de amor, nada de cuidado, nada de carinho, nada de proteção, nada de Deus!

Autor(a): Samuel Vieira

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