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O cheiro de esgoto que não sentimos

Edição 622 - 19 a 25 de maio de 2017

Temer, sim, ele mesmo, Michel Temer, lembra a anedota do sujeito que vivia a reclamar do cheiro do quintal do vizinho, esquecendo-se que vivia em uma pocilga cercada de dejetos por todos os lados?
A política brasileira transformou-se em um lodaçal chafurdado de excrementos sulfurosos que provoca asco, náuseas. As graves denúncias contra Temer, antes de provocar sua renúncia, estimulou suas bravatas míopes e gerundicas: “Não renunciarei, repito não renunciarei, sei o que fiz e sei a correção dos meus atos”. Enxerga o cisco nos olhos dos outros, mas não pressente a amaurose aguda que lhe tira a visão do óbvio. Como não lembrar dos estágios da verdade de Schopenhauer: “Qualquer verdade passa por três estágios: Primeiro, é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceita como óbvia e evidente.”
Por mais que se desgoste de Temer, há de reconhecer-se que o impacto das revelações do dono da JBS foram além daquilo que pudéssemos acreditar quanto a ganância de homens sem escrúpulos. A confirmar o relato, Temer - que negocia com o Congresso uma reforma da Previdência que garanta um salário mínimo a milhões de brasileiros após 25-40 anos de trabalho- negociava para si próprio uma aposentadoria de míseros 500.000 reais semanais para os próximos 20 anos. Escárnio puro.
Quem também apenas sentia o mau cheiro que exalava de seus vizinhos, esquecendo se de seus podres aromas era o, até então, ínclito Senador Aécio Neves. Na semana passada invadiu os lares brasileiros via radio e TV em horário eleitoral gratuito a pregar decência, justiça e o fim da corrupção. Caiu a máscara. Hipócrita!
A desgraça que nos assola também desperta antigas hienas. Não há motivo de jubilo seja entre tucanos, petistas, anarquistas, patos, devemos todos chorar. Na saída eventual, esperada de Temer, corremos o risco de sermos presididos por Rodrigo Maia, o Botafogo. Convenhamos, ninguém merece. Na ausência de líderes que pudessem esquecer suas ambições pessoais e fazerem um grande pacto de governabilidade, não há outra solução que não seja a convocação de eleições amplas para renovar Congresso e Executivo.
Exemplo recente de transição bem sucedida é o que ocorreu na Coréia do Sul. Lá como cá, a Presidente foi pega em conduta nada republicana envolvendo ligações pouco convencionais com a Samsung, a Petrobrás de lá. Passado o impeachment, convocaram-se novas eleições e fim de crise. Aqui, até quando,miseravelmente, vamos sofrer com esta mistanasia sociopolítico- econômica?
O cheiro pútreo da latrina do Palácio ameaça tornar irrespirável o ar desta triste terra tropical.

Autor(a): Elias Hanna