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Pais e filhos

Edição 618 - 20 a 27 de Abril de 2017

Muitos ainda relutam em admitir e tentar compreender o valor intangível que, pairando acima da consciência das necessidades, nutre a dedicação perseverante e transformadora em meio às contradições, obstáculos e às formas mais surpreendentes de comportamento humano. O amor, depurado do sentimentalismo e da falsa compaixão, é essência e fenômeno, reserva inesgotável de luz e calor, poder de agregar para fazer surgir coisas novas e renovar incessantemente tudo que existe. É a capacidade de amar que confere têmpera e resiliência aos mais engajados como colaboradores e líderes. O amor é inspirador das iniciativas mais originais e das inovações mais eficazes.
É grande o número dos que crescem em poder econômico e político movidos apenas pela vaidade e a ambição. Porém, são muitos os que fracassam devido ao esgotamento das próprias forças, da capacidade de renovar-se e de reinventar o modo como se processam suas atividades. Mas nenhum fracasso é mais lamentável do que aquele que redunda na perda dos filhos para a ociosidade improdutiva, o hedonismo exacerbado, a violência irrefreável e a delinquência. E muitos pais fracassam porque insistem em cultivar preconceitos em lugar do conhecimento. Perseveram em sustentar opiniões infundadas quando deveriam identificar as melhores fontes de informação para fazer constatações seguras da natureza e dimensão dos fenômenos culturais com as novidades tecnológicas que afetam o comportamento dos filhos.
Nosso tempo é o dos meios eletrônicos de comunicação que viabilizam com inédita velocidade o acesso à variedade inesgotável de bens materiais e também à todas as formas de lazer e da criação cultural, com estímulos à interação produtiva mas também aos comportamentos mais extravagantes e degradantes. Quantos pais, em nossos dias, admitem que deveriam aceitar com naturalidade a diversidade de interesses e motivos no comportamento dos filhos, e mesmo reconhecer que convém tutelá-los durante o menor tempo possível para que assumam maior responsabilidade pelos próprios atos ainda no período de formação básica? São eles, os saudosistas obstinados, que o poeta Kahlil Gibran adverte ao mesmo tempo que exalta a convivência harmoniosa:
“Teus filhos não são teus filhos.
São filhos e filhas da vida, anelando por si mesma.
Vêm através de ti, mas não de ti, e embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos, pois que eles têm seus pensamentos próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois que suas almas residem na casa do amanhã, que não podes visitar sequer em sonhos.”
O dinamismo do comércio alterando constantemente os hábitos de consumo, a instabilidade dos motivos que permeiam as relações interpessoais e outros fatores impedem, agora, os adultos de impor padrões de comportamento previamente definidos. Como preservar, então, os fundamentos do comportamento individual compatível com o anseio de prosperidade, desenvolvimento social e consolidação da democracia? Condizente com a valorização da autonomia pessoal, maior transparência dos atos humanos e diversidade do modo de ser dos indivíduos com sua sensibilidade, seus pensamentos e aspirações? As novas possibilidades de relações sociais e afetivas requerem inegavelmente percuciente compreensão da complexidade dos seres humanos e mais tolerância, fundadas na convicção de que o amor pode realmente compreender todas as coisas.

Autor(a): Antônio de Deus