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Oncologistas criticam liberação da “pílula anticâncer”

Saúde Comentários 01 de abril de 2016

Testes com as cápsulas já mostraram que a substância é ineficaz no tratamento das células cancerígenas. Autorização segue para sanção presidencial


Na última terça-feira (22) o Senado aprovou o projeto de lei que autoriza o paciente oncológico a usar a fosfoetanolamina sintética, substância conhecida popularmente como “pílula anticâncer”. O projeto, que agora segue para sanção da presidente Dilma Rousseff, foi bastante criticado por especialistas da área de oncologia.
“A decisão dos legisladores desmoraliza o Ministério da Saúde, a Anvisa, a ciência e o país. É uma medida baseada em pressão pública e não técnica. Vamos continuar lutando para que os pacientes tenham uma saúde melhor e não que coloquem vidas em risco”, diz Gustavo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc).
A decisão é ainda mais grave, pois veio depois da liberação dos resultados dos primeiros testes realizados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que mostraram que em testes in vitro a “pílula do câncer” não apresenta eficácia contra células cancerígenas. Os cinco primeiros relatórios, divulgados pelo Ministério na sexta-feira (18), também revelaram que a substância não é pura, contrariando o que afirmavam seus criadores.
“A informação era de que a fosfoetanolamina era pura, mas há cinco componentes na cápsula. Os resultados preliminares mostram que a fosfoetanolamina não tem atividade contra o câncer”, diz Luiz Carlos Dias, professor titular do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que atuou na pesquisa do MCTI na etapa de caracterização e síntese dos componentes da cápsula.
Segundo Dias, a quantidade de fosfoetanolamina na composição da substância é de apenas 32,2% e o outro componente da fórmula, chamado monoetanolamina, apresentou capacidade de reduzir a proliferação de células com câncer. “Um dos componentes tem uma pequena atividade, mas é muito marginal, menor do que a apresentada por tratamentos convencionais.” Em nota, o ministério informou que os resultados são preliminares e que “não existe ainda um laudo conclusivo sobre a substância”.
Outro ponto preocupante, segundo o pesquisador, foi o fato de as cápsulas não apresentarem a mesma quantidade de substância em cada uma delas. Enquanto o rótulo indicava que deveria haver 500 mg por cápsula, em 16 amostras pesadas a quantidade variava de 233 miligramas a 368 miligramas. “Cada uma tinha uma quantidade diferente. Indica um processo artesanal de colocar o conteúdo na cápsula.”
Presidente da Oncoguia, organização não governamental que oferece apoio e orientação para pacientes com câncer, Luciana Holtz diz que a decisão do Senado não deve ser comemorada e cobra atenção para outras questões relacionadas à doença. “A ‘fosfo’ ainda é uma grande incerteza e nós precisamos de uma bula com informações, não em branco. A gente espera que o Legislativo seja atencioso com outras demandas, já que estão demonstrando interesse pelo tema do câncer.”
Auro del Giglio, chefe do Departamento de Oncologia Clínica do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), diz que a medida pode atrapalhar o tratamento, visto que pacientes podem trocar medicações tradicionais pela pílula, mas que os profissionais podem impedir isso. “Não estamos acostumados a prescrever algo possível de ser prescrito, mas o que acreditamos ter eficácia.”
A fosfoetanolamina sintética é uma substância criada pelo professor aposentado Gilberto Chierice, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, e distribuída há mais de 20 anos sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Autor(a): Da Redação

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