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O lado que pouca gente conhece do HEP, antigo Sanatório Espírita

Especial Comentários 15 de abril de 2016

Perto de completar 66 anos de sua fundação, o SEA ainda é, para muitos, um símbolo de preconceitos e tabus. O sanatório é um lugar cheio de vidas profundamente carentes de afeto e atenção


Para muita gente, o que acontece portões adentro de um sanatório ainda é uma realidade cercada de preconceitos e tabus. Entretanto, esta situação é bem diferente quando essa realidade é colocada à frente dos nossos olhos, sem retoques. Foi este o desafio de um convite feito pela direção do Sanatório Espírita de Anápolis (SEA) ao Jornal Contexto, ou seja, conhecer a instituição, sua história, seu presente - as dificuldades e as conquistas - e os desafios para o futuro. A visita que deu origem a esta reportagem aconteceu no último dia 06. No SEA, fomos recebidos pelos diretores Cauby Moreira Pinheiro, Adilson Pinto e Denis Diniz.
Para iniciar a matéria, é necessário subverter a ordem cronológica e expor o sentimento que expressa a visão da diretoria em relação ao futuro da instituição. Este futuro tem dois caminhos: o da modernização e o dos valores. Estes caminhos, diga-se de passagem, não são distintos. Daí, o desafio de preparar o SEA para atravessar a linha dos tempos modernos buscando um melhor aproveitamento da sua estrutura, distribuída em cerca de 16 mil metros quadrados de área, localizada em uma região bem valorizada da Cidade. E, por outro lado, preservar aquilo que está na raiz de sua história: o trabalho filantrópico que alcança pacientes vitimizados por transtornos mentais, pela dependência de álcool e drogas e problemas assemelhados, e de forma indireta as famílias, que têm no SEA uma das poucas unidades especializadas para acolher e tratar estes pacientes.
Dentro da proposta de modernização da instituição, a diretoria está promovendo estudos no sentido de destinar espaços em sua área externa para a implantação de engenhos de publicidade que poderão ser locados e a renda revertida para a manutenção do próprio hospital. Da mesma forma, estuda-se a possibilidade de buscar parceiros para administrar os espaços existentes do campo de futebol, da quadra poliesportiva coberta e do auditório, este com capacidade de receber 400 pessoas sentadas. Uma boa estrutura, que carece de algum investimento para que possa ser utilizada de forma otimizada e rentável.
Por conta de uma adequação feita com a intermediação do Ministério Público, o Sanatório Espírita de Anápolis mudou o sistema de atendimento, sendo que na parte de internações, a regulação passou a ser feita pelo Município, priorizando os pacientes de Anápolis e dos pacientes de cidades que têm pactuação com a Secretaria de Saúde.
Até então, o SEA recebia - por ser uma unidade de referência em Goiás - pacientes de cerca de 100 municípios goianos e de outros estados da Federação, em grande maioria, oriundos do Sistema Único de Saúde (SUS), que paga por uma diária de internação, módicos R$ 33,95. Isso, para custear cinco refeições por dia, mais medicação e acompanhamento médico. E ainda por cima, este valor está congelado há 10 anos. Chega a ser uma situação surreal. Uma cortesia com o chapéu alheio: o hospital oferece um atendimento de qualidade para o SUS. Em contrapartida, o SUS pratica uma remuneração defasada, injusta e irreal. E, a pretexto de estar se balizando na lei antimanicomial, não oferece uma política para acolhimento dos pacientes com transtorno mental, alcoólatras e drogativos que necessitam de internação. Aliás, algumas internações, até, são compulsórias - determinadas pela Justiça.
Na parte ambulatorial, o SEA já oferece consultas particulares com especialistas de seu quadro. É um dos poucos hospitais, talvez, no País, que adota um plantão diário, com profissionais que doam parte de seu trabalho, recebendo menos do que receberiam trabalhando em outro hospital público ou privado. Este é o espírito do voluntariado e da filantropia, que fazem parte, como foi dito no início da reportagem, de um dos caminhos da instituição. Esta é uma força que ajudou a manter o Sanatório Espírita ao longo dos seus 66 anos de existência, lutando contra toda sorte de dificuldades, muitas das vezes, desfazendo-se de parte do seu patrimônio, para não lançar ao abandono pessoas que o destino incumbiu de lutar contra doenças devastadoras. Pessoas que, aos olhos de alguns burocratas são, infelizmente, enxergados como números apenas.

Do outro lado do portão
À primeira vista, o que impressiona no Sanatório Espírita de Anápolis é que o prédio, embora antigo, é bastante asseado. A sobriedade do local tem a ver com a missão da unidade, de acolher pacientes vitimizados por transtornos químicos e dependência de álcool e drogas. Os espaços são devidamente divididos de acordo com a enfermidade, com alas feminina e masculina.
Dos 320 leitos, atualmente, apenas 120 estão ocupados, também como reflexo das mudanças ocorridas nos últimos meses. Um local que chama a atenção é o refeitório, com uma bem montada cozinha industrial onde, para se ter uma ideia, são consumidos diariamente um fardo de arroz; um fardo de feijão, cerca de 90 quilos de carne e mil pães. Parte das verduras servidas aos pacientes é proveniente de plantações na fazenda que pertence à instituição. Uma forma, também, de minimizar gastos.
Dentro do hospital, a estrutura abriga os serviços de psicologia, psiquiatria, fisioterapia e terapia ocupacional, com oficinas de música, artesanato, pintura. Além de quadra coberta, campo de futebol e piscina. Tudo, devidamente, utilizado com o suporte dos profissionais que assistem aos pacientes do SEA. No dia da visita, inclusive, era dia de futebol. Um jogo movimentado e com direito a torcidas.
Poucos hospitais contam como uma estrutura desse porte que, obviamente, foi construída ao longo de mais de seis décadas e meia de trabalho. Não surgiu, portanto, do dia para a noite. E, tem também a fazenda, com uma estrutura à parte, que era utilizada para acolher os pacientes com quadros mais complexos e, em sua maioria, abandonados pelas famílias.
O SEA conta, hoje, com uma equipe multiprofissional composta por 04 psiquiatras; 06 educadores físicos; 04 assistentes sociais; 02 terapeutas ocupacionais; 03 farmacêuticos; 04 assistentes sociais; 01 nutricionista; 03 enfermeiros superiores e 40 auxiliares de enfermagem, 07 médicos plantonistas; 02 clínicos gerais.
Outro detalhe importante: o Hospital não tem nenhum bem em penhora e tem todas as certidões absolutamente em dia. Alguns financiamentos foram contraídos para cobrir gastos, principalmente, com a folha funcional, mas os pagamentos são descontados dos recursos repassados pelo Governo Federal. O SEA passa por rigorosas inspeções sanitárias e ostenta o símbolo “A” numa classificação que aponta a qualidade dos estabelecimentos de saúde desta área.
Do ponto de vista da gestão é até um milagre a instituição sobreviver tantos anos com os valores insignificantes remunerados pelo SUS. E, isso tem sido possível com o apoio dos governos Estadual e Municipal, em que pese a situação do atraso no pagamento dos repasses firmados.

Vidas que merecem respeito e carinho
A estrutura do Sanatório Espírita, para quem não conhece, é realmente impressionante. Porém, o mais importante, são as pessoas que lá estão. Recentemente, a unidade passou a acolher os internos da fazenda “Nosso Lar”- um total de 50 pacientes.
Vários pacientes, apesar dos problemas, conseguem manter alguma comunicação. Outros não falam; alguns gesticulam. Mas, qualquer forma de comunicação é compreensível. O que eles mais querem é atenção, um pouco de carinho para minimizar parte do sofrimento que carregam com a doença e, muitos, pelo abandono. Ao longo da visita, vários pacientes vieram ao nosso encontro para ganharem um aperto de mão; colocarem as mãos sobre os nossos ombros; darem um abraço; falarem com os olhos. Não há como não se emocionar e nos sentir pequenos diante da grandeza deles que, sem dúvida, enfrentam desafios muito maiores em suas vidas, do que a maioria de nós.
Não há como não emocionar, vendo as fotografias das festas de Natal, das festas juninas, dos eventos na fazenda e, também, as fotografias daqueles que se foram e ficaram na memória dos colegas, dos médicos, enfermeiros e funcionários em geral.
É isso que há por detrás da porta de um sanatório: vidas. Vidas que ajudam as outras; vidas que dependem de outras. Esta é uma realidade da qual não se pode fugir e, por isso, vale a pena refletir sobre o modelo que temos e o que podemos construir para dar dignidade e respeito a estas pessoas e muitas outras que, por algum motivo, poderão precisar desse atendimento.

Um breve histórico sobre o SEA
O Sanatório Espírita de Anápolis foi fundado no dia 23 de abril de 1950. Portanto, vai completar 66 anos de atividades. Foi, até, com certa ironia do destino, o progresso trazido pela Estrada de Ferro, em meados da década de 30, que levou à criação da instituição, uma década e meia depois, em função da chegada de numerosas famílias que vinham em busca de oportunidades.
Porém, conforme destaca o histórico que se encontra no site do SEA, nem todos os que chegavam com a expectativa de encontrar recursos eram bem sucedidos e, em meio a muitas das famílias que migravam para o Município, havia portadores de transtornos mentais.
“Foi nesse contexto social, quando, também, se intensificava o processo do êxodo rural em nosso País, que pessoas do movimento espírita local juntaram esforços para criar uma instituição de amparo a esses necessitados”, destaca o histórico do SEA. A ata de fundação registra que a reunião que deu a largada ao projeto, aconteceu, na época, na casa do senhor Avelino Rosa. E, ali, foram aclamados e empossados os membros da diretoria provisória, formada pelos seguintes nomes: Presidente, Jaci Borges; Vice-presidente, Moacir Romeu Costa; Tesoureiro, Augusto Pinto Pereira; lº Secretário, Cecino Pereira de Alarcão; 2º Secretário, Jacy Sampaio Pires; Procurador, Benedito Muniz.
Em 06 de janeiro de 1952, eram inauguradas as primeiras instalações, ainda muito simples, mas suficientes para abrigar as cinco pessoas já internadas. O SEA é considerado instituição de Utilidade Pública Federal, Estadual e Municipal. Entidade filantrópica, encontra-se devidamente registrada nos conselhos Nacional e Municipal de Assistência Social, bem como, nos demais órgãos competentes e normatizadores do setor.

Autor(a): Claudius Brito

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