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O Jornalismo anapolino noticiou o Golpe Militar de 1964

Especial Comentários 08 de agosto de 2014

No ano de início da Ditadura Militar no Brasil, a imprensa de Anápolis narrava os fatos e os acontecimentos de um tempo em que a censura e a perseguição aos meios de comunicação imperavam


No meio do turbilhão e espanto nacionais, provocados pela instauração da ditatura no Brasil, em 1964, o jornalismo anapolino dava ao público os principais acontecimentos da época, retratando os momentos deste ano que marcaria a história política do País. Principal veículo impresso da época em circulação na cidade, o Jornal O Anápolis, sob a direção de Moacyr Junqueira, relatava os fatos daquele tempo. Na edição do dia 31 de março de 64, a capa deste periódico trazia o título ‘Jango exortou os sargentos à luta pelas reformas de base’.
A matéria relata o discurso do então presidente João Goulart a ‘sargentos e graduandos das três forças armadas do País’, em 30 de março. Ainda, de acordo com a publicação, ‘o presidente, em todo o seu discurso, fez questão de patentear que não permitirá medidas golpistas, não deseja o Congresso fechado, não deseja medidas extravagantes’. No mesmo texto, o jornal O Anápolis realiza o prenúncio do que aconteceria nas horas seguintes no País. Em 1º de abril, João Goulart seria deposto do cargo de presidente da República.
Assim dizia o relato do jornal: ‘as palavras proferidas na noite de ontem (30 de março de 1964) pelo senhor João Goulart, que se demorou numa análise da crise político-militar observada há pouco na Marinha de Guerra, poderão, segundo os observadores, agravar ainda mais a situação militar no País, visto que as grandes patentes responsáveis pela divulgação de um manifesto ao povo no qual criticavam a ação governamental, mostram-se dispostos a largar ferrenha luta contra o Sr. João Belchior Marques Goulart’.
No mesmo dia, o Jornal trazia um texto do diretor do O Anápolis, Moacyr Junqueira, que dizia: ‘a crise político-militar que atinge o Brasil nestes dias, cujas particularidades são reservadas nas antecâmaras oficiais, tende a agravar e trazer as consequências finais desse plano anticonstitucional que se trama de há muito e que por tantas vezes tem sido denunciado pela Imprensa’.
O historiador anapolino Juscelino Polonial, afirma que havia, em Anápolis, com a inclusão da imprensa, uma onda de combate ao comunismo na Cidade. Citando o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), Polonial afirma que “nessa fase, a campanha anticomunista em Anápolis foi intensa”.
Sobre as campanhas anticomunistas no Município nos períodos mais próximos ao Golpe Militar, o especialista afirma: “a participação de setores da sociedade civil posicionando-se contra ou a favor do presidente, tanto em 1961, quanto em 1964, revela duas situações diferentes. A primeira, em 1961, mostra um quadro político em que havia uma forte disposição para garantir a legalidade com a posse do vice-presidente (João Goulart)”.
“Representantes do empresariado, através da Associação Comercial de Anápolis, a imprensa, o movimento estudantil e o prefeito Jonas Duarte, todos manifestavam, naquele momento, o apoio irrestrito ao vice-presidente, ao mesmo tempo em que repudiavam qualquer tentativa por parte dos golpistas”, declara.
“A segunda situação, em 1964, revela outra realidade bem diferente da época da campanha da legalidade. A sociedade anapolina, em sua quase totalidade, passa a defender a deposição do presidente”, revela Juscelino. Ele continua afirmando que, “com efeito, também, a imprensa anapolina funcionava como importante veículo de preparação ideológica para a deposição do presidente. Esse fato, inclusive, foi denunciado na Câmara Municipal em uma sessão de agosto de 1963, pelo vereador comunista do PTB, o líder sindical Geraldo Tibúrcio”.
‘Exército nacional colocado em severa prontidão no País’
O título acima, capa da edição de 1º de abril de 1964, trazia a narração da movimentação político-militar do dia 31 de março daquele ano, véspera do golpe que destituiu Jango (João Goulart) do poder. A notícia refletia a onda de intranquilidade por que passava o Brasil: ‘o Ministro de Guerra, Jair Dantas Ribeiro, enviou um rádio-circular ontem aos comandos dos quatros exércitos. Eis o texto: “comunico a vossas excelências que, mesmo em fase de restabelecimento da saúde, retomei hoje despacho normal do expediente, diante da eclosão de intensa onda do expediente, diante da eclosão de intensa onda de boatos alarmistas com o objetivo de intranquilizar o país. Esclareço que a ordem será mantida a qualquer preço no Brasil e determino imediata prontidão das forças militares”.
Uma edição extra, no dia 1º de abril, na forma de encarte, foi produzida por O Anápolis para narrar os fatos do que se sucederam naquela data. Este material trazia em sua capa a notícia que muitos esperavam e outros temiam: ‘Deflagrada a luta pela legalidade’. A legalidade a que se referia o texto, dizia respeito, de acordo com o jornal, à luta anticomunista que seria travada no Brasil durante aquele tempo. ‘Desde a madrugada de hoje (1º de abril), as forças democráticas brasileiras iniciaram a luta pela legalidade, visando impedir a decretação de um golpe comunista por parte do presidente João Goulart’.
‘A reação do povo e a vontade democrata das forças armadas foram mais fortes’, continuava o texto, que seguia com os dizeres: ‘espera-se para as próximas horas a queda do Sr. João Goulart e das suas ideias de comunização do país’.
‘A situação em Anápolis é de absoluta normalidade’
Este era o título de uma das matérias publicadas pelo Jornal O Anápolis no dia 03 de abril de 1964, posteriormente à tomada do poder pelos militares. No texto, a informação de que ‘o Dr. Olímpio Leite Pereira Filho, delegado regional de Anápolis, falando ontem à reportagem, declarou que é de absoluta normalidade a situação nesta cidade, notando-se apenas visível decréscimo nas atividades comerciais, durante os dias da crise política que alastrou em todo o País’.
‘Polícia mantém sob vigilância vários agitadores de Anápolis’
A vigilância da polícia sob ‘elementos de reconhecida ideologia comunista’ foi destaque da edição de 04 de abril, mostrando o desenrolar dos fatos políticos decorrentes da queda do regime democrático no Brasil e a ascensão ao poder dos militares. O texto mostrava que ‘essa vigilância é mantida permanentemente com a finalidade de evitar a ação subversiva dos comunistas de Anápolis que, desarvorados ante a queda do Sr. João Goulart do poder, vendo perder as possibilidades de impor o regime comunista totalitário no Brasil, estão propensos a promover ações subversivas na Cidade’.

A cassação de Geraldo Tibúrcio
Então vereador em Anápolis, Geraldo Tibúrcio (PTB) foi cassado dias após o Golpe Militar de 1964, fato noticiado pela mídia anapolina. A informação foi dada pelo Jornal O Anápolis no dia 11 de abril daquele ano, chamando o representante do Legislativo de ‘mentor comunista que se acha foragido’.

Marcha da Família
A pagina três da edição do Jornal O Anápolis de 30 de abril de 1964 fala sobre a realização, em 1º de maio daquele ano, da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Realizadas em todo o Brasil no período de instauração da Ditatura Militar, as marchas reuniam milhares de pessoas em manifestações de apoio aos militares. A notícia veiculada pelo periódico anapolino trazia a informação de que ‘para aquela grandiosa manifestação popular democrática, os organizadores da Marcha da Família com Deus pela Liberdade esperam contar com a participação de todo o povo anapolino, num regozijo geral pela restituição da Democracia no Brasil’.
O Jornal Contexto agradece ao Museu Histórico de Anápolis Alderico Borges de Carvalho, na pessoa do diretor Tiziano Mamede Chiarotti e toda a sua equipe, por contribuir para a pesquisa e reportagem sobre a história do jornalismo na Cidade. Incentivamos os leitores a visitarem o museu para conhecer um pouco mais sobre o município e seu processo de construção. Informamos a todos que o ‘Jornal O Anápolis’ está hoje sob a direção de Dilmar Ferreira e o conteúdo apresentado por esta reportagem não necessariamente expressa linha editorial atual deste periódico anapolino.

Autor(a): Felipe Homsi

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