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Milionário por um dia

Boa Prosa Comentários 30 de julho de 2010

Funcionário da Prefeitura de Anápolis, Aderbal era o tipo do sujeito sem graça. Não conversava com ninguém, não ajudava ninguém, não se envolvia em nenhuma atividade fora do cotidiano.


Funcionário da Prefeitura de Anápolis, Aderbal era o tipo do sujeito sem graça. Não conversava com ninguém, não ajudava ninguém, não se envolvia em nenhuma atividade fora do cotidiano. Era, sempre, a mesma rotina: chegava cedo, batia o ponto, ia para sua mesa, fazia o serviço. Na hora do almoço saía sem dizer nada e retornava à tarde (naquela época funcionário da Prefeitura trabalhava o dia todo), do mesmo jeito.
Corriam os anos 70 e estava em vigor a “febre da loteca”, ou Loteria Esportiva, quando o sonho de todo mundo era fazer os 13 pontos e ficar milionário. Este era, também, o sonho de Aderbal. Naquele tempo, não existiam as lotéricas. Algumas pessoas, tipo corretores, apanhavam os palpites dos interessados e, na sexta-feira, viajavam para São Paulo, onde registravam os milhares de apostas.
Um desses agentes era Zé Maria, vizinho de Aderbal, que levava os volantes. Na sexta-feira, Zé desaparecia e, somente era visto na segunda. E, como, nunca, ninguém acertava os 13 pontos, ele continuava fazendo as viagens toda semana sem qualquer problema.
Foi até que, um dia, “a casa caiu”. Não é que o sisudo Aderbal acertou os 13 pontos? Cravou vitória do Americano de Campos contra o Fluminense e o empate do Erexim contra o poderoso Inter de Porto Alegre. Deu “zebra”. De noite, todo mundo em frente à televisão para ver o resultado no Fantástico. Aderbal era um desses expectadores. Foi anotando os resultados, um a um. Ao final, soltou um grito, rolou no chão, chamou a família, os vizinhos: “Estou rico, fiz os treze pontos”, dizia, alucinado. Os amigos conferiram tudo e a festa começou. Cerveja, churrasco, telefonemas para os parentes que moravam fora de Anápolis. Agora, era só esperar a segunda-feira e receber a bolada. E assim foi. Na segunda-feira, Aderbal, os irmãos, a esposa e amigos, foram, todos para Goiânia, direto para a Caixa Econômica.
A decepção não poderia ser maior. Não constava nenhum ganhador e, logicamente, o nome do Aderbal não apareceu. Louco de raiva, foi atrás do Zé Maria, o cambista. Ninguém sabia dele. Aliás, até hoje, ninguém sabe dele. Acontece que o Zé Maria não registrava jogo coisa nenhuma. Ficava com o dinheiro dos apostadores, escondido em casa. Aderbal ficou uma semana doente. Quando voltou à Prefeitura, ainda teve de suportar a gozação de todo mundo. Isto durou muitos anos. E quem quisesse chamá-lo para a briga, era só falar em loteria esportiva. Fato verídico. Aderbal, hoje, é aposentado e mora em Palmas, Capital do Tocantins.

Autor(a): Nilton Pereira

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