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Maria de Lima: Uma história de lutas e superações

Especial Comentários 09 de janeiro de 2015

Aos 90 anos de idade, mas, ainda, com muita lucidez, a piauiense, matriarca de uma família que tem forte presença em Anápolis, fala sobre o passado, o presente e o futuro. A entrevista faz parte do projeto de resgate da história de Anápolis, nos dez anos do Jornal Contexto


A senhora acaba de completar 90 anos. Qual o segredo para se chegar a essa idade mantendo-se, ainda, tão lúcida?
Sempre tive uma vida regrada e sem vícios. Trabalhei muito durante toda a vida, mas, acredito, que o segredo para essa longevidade é a minha fé espiritual, que me alimenta e renova, e faz vencer todas as dificuldades que surgem no dia-a-dia.

Há 57 anos a senhora aportava por Anápolis, acompanhada do marido e de alguns filhos. Por que a sua família deixou o Nordeste?
Eu nasci em São Raimundo Nonato, no Piauí, onde cresci e me casei. Lá, tive quatro filhos, um dos quais infelizmente, morreu quando tinha três anos de idade. O Nordeste sempre foi uma região cheia de dificuldades e, desde aquele tempo, tive vontade que meus filhos fossem para um centro maior para estudarem e crescerem na vida, o que era quase impossível de conseguir na minha cidade. Saímos em direção a São Paulo, caminho natural dos migrantes no início dos anos 50, com os nossos três filhos. Depois de um tempo, fomos para o Paraná trabalhar em lavouras de café, que estavam em grande desenvolvimento. Moramos, depois, em Marília, interior de São Paulo, onde nasceu nosso quinto filho. Em seguida, mudamos para Goiânia, a convite de um cunhado que lá morava e, naquela época, início do ano de 1954, a cidade era nova e bem pequena. Em Goiânia, nasceram outros dois filhos, e foi lá que meu marido começou a trabalhar como policial da Secretaria de Segurança Pública.

E por que Anápolis?
A escolha de Anápolis ocorreu em função do trabalho do meu falecido marido, que era funcionário público, e foi transferido para esta cidade.

Como foi o entrosamento de sua família com os anapolinos?
A melhor possível. Quando aqui chegamos, em maio de 1957, a cidade era bem pequena e todos praticamente se conheciam. Aqui em Anápolis tivemos mais três filhos e aqui também faleceu uma filha, que tinha 13 anos à época. Moramos durante muitos anos no Bairro Jundiaí, onde meus filhos estudaram o primário no extinto Colégio do Carmo. Depois, fizeram o Ginásio e o Cientifico (cursos já extintos) no Colégio Estadual “José Ludovico de Almeida” e no Colégio “São Francisco de Assis”. Enquanto meus filhos ampliavam o círculo de amizades com colegas de escola e vizinhos, eu fazia muitas amigas na Igreja Evangélica que freqüentava, que era a Assembléia de Deus da Avenida Tiradentes e também com a vizinhança. E, o meu marido, também, criou grande círculo de amizade no próprio trabalho, na comunidade nortista e nordestina, que já era grande na cidade.

Que lembrança curiosa, ou o que marcou a sua vida ou da família, vem a sua mente desta época?
O meu marido, na maior parte do tempo, trabalhava fora da Cidade, o que me fazia desdobrar para criar e educar os filhos. Apesar de serem tempos difíceis, os amigos e conhecidos eram mais solidários, e era comum se ajudarem mutuamente na condução das crianças. A lembrança mais marcante era com a ausência e o trabalho perigoso do meu marido, o que me deixava sempre preocupada e apreensiva. Goiás, naqueles tempos, era um lugar perigoso, a comunicação era muito difícil e os deslocamentos eram muito demorados, porque havia poucas estradas.

A senhora criou oito filhos que participam ativamente de nossa sociedade. Na sua família têm policial; advogados; professores, pastores e empresários. Como a senhora conduziu a educação desses “meninos e meninas”?
Como disse, foi um tanto difícil. Mas, desde pequenos fazia questão de levá-los à nossa igreja, e todos foram criados nos princípios do Evangelho. Eles cresceram obedientes e seguindo os princípios morais e religiosos que passávamos para eles, e que eles continuam praticando até hoje.

Vamos falar agora um pouco do “Inspetor Piauí”, o Raimundo Pinheiro Lima, seu falecido marido. Ele teve uma exemplar trajetória profissional e política, e ocupou importantes cargos públicos: vereador; deputado estadual, delegado de polícia e auditor fiscal. Com tantos afazeres, a responsabilidade da senhora para com as lides domésticas e para acompanhar a educação dos filhos por certo foi grande. Fale-nos um pouco sobre isso; A senhora, por exemplo, dava muito “pitaco” na vida do esposo?
O meu marido, depois de certo tempo na Cidade, tornou-se uma pessoa muito conhecida. Devido ao destaque conquistado, foi convidado a entrar na política, no grupo da oposição, que à época era comandado pelos irmãos Elcival, Emival e Edenval Caiado, este pai de Ronaldo Caiado, que se tornaram grandes amigos e companheiros dele. Em meados dos anos 60, ele foi candidato a prefeito de Goianápolis, onde tinha sido delegado, e foi derrotado. Depois, foi candidato a deputado estadual, ficando na suplência, e assumindo depois com o afastamento de um deputado. Em 1970, já como auditor fiscal, foi eleito vereador na Cidade, com uma votação recorde e reeleito em 1972, novamente com votação recorde. Ele teve mais de 1.500 votos, quando a cidade tinha um eleitorado de 50.000 votantes. Terminado o mandato, encerrou a carreira política e logo depois se aposentou. Dava sim meus “pitacos”. Às vezes ele ouvia, outras não. Mas, era um marido e pai zeloso, e igualmente preocupado em oferecer o melhor para os filhos, principalmente a educação e formação.

Conte-nos uns causos sobre o Inspetor Piauí daqueles tempos. Algo que marcou a sua memória da família.
Certa vez, em Goiânia, ele trocou tiros com um jagunço a serviço do governo da época, próximo do Palácio das Esmeraldas. A intenção deste jagunço era matá-lo, visto que ele era da oposição, e isso trazia aborrecimentos para os chefões políticos. Como o caso teve grande repercussão, imediatamente surgiram comentários de que ele teria morrido, o que me deixou desesperada. Felizmente, ninguém se feriu. O meu marido era um homem corajoso, e por variadas vezes, prendeu sozinho bandidos perigosos, nas mais de 40 cidades em que foi delegado. Como político e vereador, ajudou muito o Irapuan Costa Junior, quando este foi prefeito da Cidade. O Irapuan era desconhecido aqui, e meu marido foi uma das pessoas que o apresentou aos diversos segmentos sociais. Também ajudou o prefeito Decil de Sá Abreu, do qual foi auxiliar e conselheiro. Ele conheceu o Decil, ainda rapazinho, em Goianápolis. Decil, assim como muitos jovens políticos e pessoas de destaque daquela época, tinham meu marido como referência política e moral.

A senhora é uma evangélica declarada, e atuante. Ajudou, e esteve à frente da construção de vários templos religiosos e na fundação de igrejas em Anápolis. A senhora vem de um tempo que se declarar ou se mostrar “crente” causava sinais de preconceitos e constrangimentos. Estou errado?
Aquela época a Igreja Católica dominava completamente o meio religioso. Raramente se viam evangélicos, e quando estes assim se declaravam, eram alvos de deboches e preconceitos, e praticamente marginalizados na sociedade.

Como missionária a senhora percorreu inúmeras cidades, estados e, até, países. Por onde a senhora andou e qual era o ponto mais forte da sua pregação?
Do Brasil, conheço a metade. Do Piauí ao Rio Grande do Sul, passei praticamente por todos os estados e capitais, participando de congressos e encontros evangélicos. Estive ainda em Israel, percorrendo os caminhos sagrados do cristianismo, bem como em Roma. A minha pregação sempre se baseou na busca da concórdia, do amor ao próximo, da prática da bondade e que Cristo é o nosso único Salvador. “Creia nele, e serás salvo”.

A senhora recebeu título de Cidadã Anapolina há exatos 10 anos. O que representa este título para a irmã?
Anápolis me agraciou com duas honrarias: o título de Cidadã Anapolina em 2004, concedido pela Câmara Municipal e a Comenda “Gomes de Souza Ramos” em 2014, concedida pela Prefeitura Municipal. Os dois títulos representam um grande orgulho para mim e minha família. Ser reconhecida e homenageada nessa cidade, que é referência de Goiás, deixou-me envaidecida e honrada. Por uma coincidência do destino, a Comenda “Gomes de Souza Ramos” foi-me entregue em 24 de julho, exatamente no dia em que comemorava os 90 anos. Fiquei emocionadíssima com o Teatro Municipal e toda aquela platéia das mais altas autoridades do Município, bem como os amigos, a família e os presentes cantando os “Parabéns”. Segundo o cerimonial do evento, foi a única vez em mais de 30 anos que aconteceu tal manifestação na entrega da Comenda.

Que mensagem cristã e de cidadania senhora deixa para os jovens de hoje, em especial para as mulheres?
Aos jovens quero deixar a mesma lição que me embalava há mais de 70 anos. Estudem muito, porque o estudo é a alavanca para se progredir na vida. Quanto às mulheres, elas devem ter amor próprio, trabalhar e conquistar a independência, e preparar para serem esposas e mães responsáveis e zelosas.

O que a senhora espera de Anápolis? Em suas orações, o que a senhora pede a Deus para esta Cidade?
Sempre espero o melhor para Anápolis. A cidade atualmente progrediu muito, tem muitos recursos e ótima qualidade de vida, completamente diferente daquela cidade que nos acolheu há 57 anos. Praticamente, temos de tudo aqui e não precisamos nos deslocar aos centros maiores em busca de recursos. Nas minhas orações sempre peço proteção de Deus para a cidade, a diminuição da violência e que nossos governantes façam o melhor para a comunidade.

Autor(a): Vander Lúcio Barbosa

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