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Manoel Vanderic: O delegado humanista e polêmico

Especial Comentários 11 de abril de 2015

Um dos mais jovens delegados de polícia do Estado, Manoel Vanderic Filho, 31, é responsável por três importantes delegacias em Anápolis. O Sexto Distrito Policial e as especializadas de Proteção ao Idoso e ao Deficiente Físico e Mental. Trabalha em regime integral e diz não conseguir separar o trabalho da vida pessoal. O delegado é muito criticado entre os colegas de sua classe por desenvolver ações de cunho assistencialistas, “que não dizem respeito à polícia”, segundo dizem


Vander Lúcio Barbosa - O senhor começou jovem a carreira de delegado. Foi uma escolha planejada ou pensava em seguir outro caminho na vida profissional?

Manoel Vanderic - Eu pensava em outro caminho. Quando terminei o curso de bacharel em Direito, queria entrar para o Ministério Público. Mas exige três anos de atividade jurídica. Logo depois que eu me formei, o primeiro concurso que abriu foi para delegado. E eu fiz sem nenhuma pretensão. Passei, tomei posse, achando que iria ficar só até completar os três anos e passar para outro. Mas, me apaixonei pela profissão. É que eu tinha outra ideia sobre a profissão. Principalmente agora, com essa Delegacia do Idoso e do Deficiente. Eu me encontrei e quero permanecer até eu me aposentar.

Vander Lúcio Barbosa - O senhor é filho de uma família muito querida em Anápolis. Foi criado como poucos. Teve uma estrutura social formada com bases sólidas. Atrevo-me a opinar que o senhor poderia ser visto por muitos como o “filhinho do papai ou da mamãe”. Mas, foi à luta, optou pela carreira de policial. Como a família recebeu a notícia?

Manoel Vanderic - Pessimamente! Minha mãe fez novena por um mês para eu desistir. Até hoje, ela tem pavor. O meu pai queria eu advogasse. Ele acredita que o serviço público - isso na visão do meu pai - ele te engessa muito. Você fica amarrado em uma estrutura que é moldada e não te dá muita autonomia para o crescimento. E a minha mãe, medo. Ela tinha aquela visão - que eu acho que a maioria das pessoas tem - de que Polícia Civil é um trabalho de ir para a rua armado, correr atrás de bandido, trocar tiro, receber ameaça. Eu também tinha essa visão. Mas é completamente diferente. “Os meus pais, hoje, são grandes colaboradores do meu trabalho”.

Vander Lúcio Barbosa – O senhor se mostra, e se declara apaixonado pela carreira policial. O seu ideal era outro. Esse “casamento” é sólido ou sofre riscos de divórcio?

Manoel Vanderic - Não. Nunca. Só se me tirarem. Porque, infelizmente, Vander, há um péssimo costume na polícia e nas outras instituições do Executivo, tanto o estadual, como o nacional, de mudança. Não há uma estabilidade em um cargo. Geralmente, quando a pessoa é ruim de serviço, ela é mudada para outro, porque não se adaptou. E quando ela é boa, ela é tirada para outro cargo, supostamente mais difícil, ou para outra função, geralmente administrativa.

Vander Lúcio Barbosa - O seu trabalho se destaca hoje além das fronteiras de Anápolis. É pauta de estudo, de modelo para outros centros. Anápolis corre o risco de perdê-lo? O senhor tem vontade própria para ficar em nossa cidade?

Manoel Vanderic - Não. Infelizmente, eu sou vinculado hierarquicamente à direção da Polícia Civil, ao Governador do Estado. Então, se houver uma vontade política ou um entendimento da administração de que eu me encaixaria em outro local, ou que eu serviria melhor em outro local, eu posso ser movido. Não é minha vontade. Mas, infelizmente, eu sou um posto dentro de uma estrutura hierárquica.

Vander Lúcio Barbosa - O senhor por algumas vezes colocou a “boca no trombone” e reclamou, fez duras críticas sobre as estruturas que as delegacias e o 6º DP possuem. Esse problema foi equacionado?

Manoel Vanderic - Dificílimo! O Sexto DP atende, por si só, a 48 bairros. Para todos os tipos de delito: estelionato; furto; roubo; crime contra o patrimônio; latrocínio; crime de trânsito; crime tributário do DAIA. Muito crime tributário. Então, é imensa a demanda. E o número do meu pessoal diminuiu. Eu implantei a Delegacia do Deficiente, que atende a toda a circunscrição de Anápolis. A do Idoso, todos os crimes contra o idoso. E, nós funcionamos aqui no mesmo lugar, com uma equipe menor do que quando tinha só o sexto DP. Então, é quase um milagre o que a minha equipe faz. Agora, o que me ajuda muito, o que permite que nós realizemos um trabalho social é a atuação dos voluntários. Essa divulgação pela imprensa - por isso que eu sempre divulgo os casos -, sensibilizou tanto a comunidade, que hoje nós temos estudantes de Direito, de Enfermagem, faculdades, médicos, psiquiatras, oftalmologistas. Vários profissionais da saúde, e da Psicologia e da Psiquiatria que atendem aqui, trabalham aqui voluntariamente. Promovemos distribuição de cestas básicas; reforma de imóveis; consultas médicas, intermediação para cirurgia e, até, intermediação para aposentadorias.

Vander Lúcio Barbosa - Por força do ofício, o senhor mexe com várias áreas sensíveis. Dentre elas, as questões tributárias no DAIA, crimes contra o Estado. O senhor recebe muita pressão política quanto a isso?

Manoel Vanderic - Já recebi muita. Mas, aprendi a burlar um pouco essa pressão. Uma das formas que eu aprendi é justamente o trabalho em parceria com a imprensa. Hoje, por exemplo, se eu for fazer uma prisão, ou tenho um procedimento que envolve alguém mais abonado, eu sempre divulgo o caso na imprensa antes de concluir o procedimento. E, quando isso é divulgado, ele acaba servindo como uma proteção a mim, e também para a investigação. Porque a imprensa possui um poder, hoje, de correção.

Vander Lúcio Barbosa - A Impressa blinda as suas ações, é isso?

Manoel Vanderic - Com certeza. Hoje nós vivemos um caos carcerário no Brasil, de forma que os advogados não questionam mais a conduta do seu cliente. Eles questionam a ação da Polícia. Porque é muito comum o advogado conseguir uma liberdade provisória ou a absolvição, questionando a ação da Polícia, se foi arbitrária, abusiva. E hoje, infelizmente, apesar dos grandes esforços de colegas, das autoridades, nossa polícia ainda vista com muito descrédito.

Vander Lúcio Barbosa - Quais são as ocorrências mais frequentes, tanto ligadas ao idoso, quanto aos portadores de necessidades especiais?

Manoel Vanderic - É extensa a gama de crimes sexuais praticados por filhos contra mães idosas, de parentes contra deficientes, principalmente deficientes mentais, crimes sexuais. Maus-tratos extremos. Eu acredito que hoje a gente tenha aqui casos mais tristes que esses que a gente vê na televisão, em documentário no Globo Repórter, da África, do Oriente.

Vander Lúcio Barbosa - É notória a sua sensibilidade, o seu zelo para com os desassistidos sociais. Isso ajuda ou atrapalha na apuração dos casos?

Manoel Vanderic - Positivo e negativo. Grande parte da minha própria instituição acredita que esse trabalho social não é da Polícia. Que a Segurança Pública é feita com prisão. Eu discordo. Este sistema está falido. Porque nunca se prendeu tanto como hoje. A Polícia nunca foi tão eficiente. E a criminalidade nunca aumentou tanto como agora. Então, demonstra que essa política de armas e de cadeia está equivocada. A gente tem que apelar para outras formas de implantar segurança. Eu acredito na Educação, trabalho social, essa proximidade, o foco maior na vítima do que no autor, é uma das formas. E é isso que nós estamos tentando implantar aqui. Agora, é muito difícil - eu entendi sua pergunta. Essa sensibilidade é muito mal vista pela maioria das instituições, inclusive por grande parte do Poder Judiciário e do Ministério Público. Já fui alertado várias vezes para me envolver menos com a vítima. Já recebi sugestões de que eu devo fazer terapia, sob o argumento que estou muito equivocado na maneira de trabalhar. Olhe, é estatística: O Estado só consegue apurar e punir, de fato, o criminoso, em apenas dez por cento dos casos. Então, o que a vítima quer hoje é ser bem recebida, é ser bem tratada, é perceber que o Estado se preocupa com ela. E é isso que a gente faz aqui na Delegacia. E isso incomoda.

Vander Lúcio Barbosa - O que abordamos agora, sobre emoções afloradas num contraponto à razão, é um assunto polêmico, devemos admitir. Mas, como o senhor acredita que as autoridades que não comungam com o seu pensamento, devem se comportar para humanizar mais, diríamos assim, as ações contra o crime?

Manoel Vanderic - Eu acho que sair do gabinete e ir visitar. Cito um exemplo: nós temos um caso de um adolescente esquizofrênico, que há cinco anos a mãe o mantinha amarrado em casa, ali no Copacabana. Ele recebia o tratamento que era disponibilizado pela Secretaria da Saúde que estava disposto a recebê-lo lá quando ele quisesse. A mãe é solteira, com outros dois filhos menores. Vivem do benefício do deficiente, um salário mínimo. A mãe entrou em uma depressão tamanha, porque ele grita cedo, à tarde e à noite. Ele fica amarrado na cama, onde faz as necessidades fisiológicas. Quando ele se soltava, ele ia para cima da mãe, mordia, batia. A mãe toda machucada. Os outros irmãos pareciam zumbis, perambulando pela casa, porque não dormem. E vendo o sofrimento da mãe. Esse foi o quadro que encontramos quando fomos apurar essa denúncia de suposta violência contra menor. Aí começou a nossa luta, porque aqui em Anápolis não há um lugar para internação de menor com deficiência mental. O Hospital Psiquiátrico não pega, isso porque não tem a estrutura adequada. Em Goiânia, os locais que receberiam exigiam acompanhante, por ser menor. E a mãe, como é que ela iria acompanhar? Extremamente deprimida com outros dois menores. Eu noticiei no Ministério Público, Judiciário, Prefeitura, até o Estado. E era muito morosa a resposta. Todo mundo conhecia o problema. Mas, ninguém foi lá ver de perto o sofrimento da mãe, que é o que eu acho que faz toda a diferença. Um dia de forte tempestade, a chamada “Enchente de São José”, fui à casa dessa mãe e a encontrei debaixo daquela chuva, dentro de uma grota, no meio de um matagal, tentando o suicídio. Deitada na chuva, com a poça já cheia d’água. Esse filho dela mais novo, de dez anos, viu, entrou lá dentro, estava abraçado com ela debaixo dessa chuva. Eles ficaram umas três horas lá dentro. Vander, essa cena, eu nunca vou esquecer. Entretanto, nenhum promotor, juiz, prefeito, nenhum secretário de Saúde, ninguém viu, ninguém vai ver.

Vander Lúcio Barbosa - Esse é um exemplo entre, talvez, centenas com os quais o senhor se deparou. Além desse caso, qual outro marcou a sua vida de policial, um caso que abalou a sua estrutura emocional?

Manoel Vanderic - Senhor Francisco, 59 anos, do Residencial das Flores. Após denúncia, o encontramos abandonado, em um ambiente que cheirava a cadáver, que é muito característico. Achei que ele estava morto. Ele tinha diabetes; uma perna amputada e, a outra, estava inteira com necrose. Ele machucou e não tratou. Ele era macumbeiro, então ele usava erva de Santa Maria, mata-bicheira, essas coisas. Necrosou e foi dando bicho. Quando tirou faixa da perna, nunca tinha visto coisa igual. Você via pedaço do osso. Era uma coisa indescritível. Apesar de tudo, ele estava consciente. Chamamos o SAMU e ele se recusou a ir para o hospital. Falou: ‘Eu vou me curar por oração’. E existe um protocolo, se a pessoa está consciente, ela pode recusar o tratamento. Aí eu consegui fazer uma artimanha e o levei para o Hospital de Urgências. Lá, o médico disse que ele corria risco de morrer, se não amputasse a perna. E ele não queria amputar. Achou que iria se curar pela oração. Então, o hospital o pegou e levou para casa. Quando eu descobri, ela já estava sozinho, na mesma situação, batendo mata-bicheiro. Aí começou uma luta. Eu e uma funcionária voluntária íamos lá fazer curativos, limpar, lavar com água para tirar os vermes em um tecido podre. Uma situação deplorável. Aquilo me abalou muito. Então, consegui um médico - para protegê-lo, eu não vou citar o nome - que me orientou. Coloquei um calmante no suco, levei o idoso para a Santa Casa, consegui sensibilizar a Irmã Rita para recebê-lo, e começamos um trabalho psicológico para convencê-lo a amputar a perna. Foi mais de um mês. Os médicos da Santa Casa, que foram maravilhosos, conseguiram convencê-lo a fazer a cirurgia. Mas ele era agressivo, porque não queria intervenção. Muita gente falava: ‘deixe ele morrer’. Escutei isso até de altos cargos, que eu não vou citar. Mas eu percebia que ele não queria morre. E aí ele foi operado, levei-o para um abrigo. Ele fugiu desse abrigo, invadiu um imóvel, ficou escondido e, depois, ele morreu. Teve uma parada cardiorrespiratória. Depois de uns quatro, cinco meses, uma pessoa do IML foi avaliar os corpos e o reconheceu por causa das entrevistas que demos na televisão. E aí me ligou, me comunicou. Ia ser enterrado como indigente. Então, esse caso me chocou muito.
Vander Lúcio Barbosa - Quantos anos o senhor tem?
Manoel Vanderic - 31.
Vander Lúcio Barbosa - Solteiro?
Manoel Vanderic - Sim!
Vander Lúcio Barbosa - Namorando?
Manoel Vanderic - Risos...

Vander Lúcio Barbosa - Delegado, num sábado qualquer, eu andava pelos bairros passeando de moto, quando vi, muito rapidamente, uma mulher aparentando ter uns setenta anos. Mora na Vila São Joaquim. Achei curioso o seu comportamento e, conversando com vizinhos, fiquei sabendo que ela diz namorar com o senhor, que há uma espécie de aliança entre vocês, uma promessa de casamento! Que história é essa? (risadas).

Manoel Vanderic - Dona Alice! Outro caso marcante. Nossa delegacia a adotou. Ela mora sozinha em um barraco muito pobre. O esposo faleceu, ela não tem nenhum parente aqui, as outras irmãs faleceram também. Sozinha. E ela tem uma deficiência mental. Então, ela não sai de casa há dez anos. Os vizinhos jogavam comida por cima do muro e ela jogando lixo de dentro para o lado de fora. Então, era é bicho. Quando chegamos lá, tivemos que cortar o portão. Ela nos agrediu, jogou pedra, bateu de porrete. Com o tempo, fomos conquistando a sua confiança. Hoje, é a Delegacia que recebe a aposentadoria dela, que leva a comida todo dia. Já foi reformado o imóvel dela. O único elo com a sociedade que existe é com os agentes daqui da Delegacia e comigo. Ela me chama de namorado mesmo, fala que vai se casar comigo.

Vander Lúcio Barbosa - E eu disse aos vizinhos aos vizinhos que você costuma cumprir promessa. (risadas).

Vander Lúcio Barbosa - Vamos voltar para as questões jurídicas. Para o senhor, a lei brasileira de combate aos crimes praticados contra idosos, contra as crianças e adolescentes, contra os próprios deficientes, ela é falha?

Manoel Vanderic - Demais. Nem tanto a lei. A aplicação da lei. Vou exemplificar dois fatos que vão te demonstrar isso. Em relação ao idoso, o que mais ocorre é o crime de maus tratos. Aquela negligência em deixá-lo sem alimentação, sem a higiene necessária. Qualquer conduta que provoque um sofrimento intenso no idoso é considerado maus tratos. Alguns casos são gravíssimos. Só que a pena máxima imposta é até um ano de detenção. Geralmente, na maior parte dos casos, nós formalizamos um Termo Circunstanciado de Ocorrência para essa pessoa ir a uma audiência de conciliação no juizado criminal. Lá, quase sempre, é imposta uma pena de multa, o pagamento de uma cesta básica. Só que, esse agressor, muita das vezes, é filho ou neto. Aí, quem vai pagar essa pena, geralmente, é próprio o idoso que foi agredido, com a sua aposentadoria. Então, o Judiciário o pune duas vezes. Por isso nós mudamos nossa forma de trabalhar aqui. Geralmente, nós não formalizamos mais TCO. A gente faz conciliação, passa a monitorar, passa a ter reuniões com a família, chama os vizinhos para ajudar. É uma intervenção social mesmo, de conciliação. E outro problema grave é, por exemplo, a medida protetiva. Tem, por exemplo, um casal de idoso na Jaiara que criou um neto. Aos vinte anos, ele se envolveu com drogas e começou a agredir estes idosos. Furta tudo o que eles têm em casa; bate; xinga, ameaça, já quebrou o nariz do idoso com tijolo. Foi preso em flagrante, mas, saiu muito rápido. E, desde 2012, tem uma medida protetiva proibindo-o de se aproximar dos avós. Mas, quando ele saiu da cadeia, foi morar, novamente, com os idosos. Então, a fiscalização do Estado, o monitoramento dessas vítimas, para você ver o tanto que é falho. E ele agrediu os avós no começo deste ano de novo, foi preso por tortura - no meu entendimento, era uma tortura -, e foi colocado em liberdade poucas semanas depois. E, provavelmente, já está lá na casa perturbando o idoso de novo.

Vander Lúcio Barbosa - As suas ações, claro, têm grande repercussão na mídia, até porque, a maioria delas é de natureza assistencial. E isso desperta, óbvio, a atenção da imprensa. Isso tem causado ciúmes a organismos político-administrativos?

Manoel Vanderic - Demais.

Vander Lúcio Barbosa - O senhor está se preparando para ser um político partidário?

Manoel Vanderic - Nunca vou ser candidato a nada. Nem filiado. Eu tenho aversão à política. Eu acredito que é muito importante, mas nesse sistema que vigora hoje no Brasil, é impossível. Porque você não faz política sozinho. É um jogo de interesse, você depende de todo mundo. Então, não vou entrar nisso. Eu já tenho a minha profissão, estou realizado. E eu sei que não vai resolver. Muita gente fala: ‘vai para a política, que você vai poder ajudar muito mais gente, através de algum cargo político. Eu não concordo. Vejo muita coisa teórica. Então, acabo criticando muito. E a minha atuação, eu acredito que é uma afronta a essa imagem que esses políticos têm. Tem uns quatro ou cinco políticos que me ajudam de fato. Mas são pouquíssimos.

Vander Lúcio Barbosa - Vamos mudar o foco: furto de cargas em nossa região. Hoje existe até consórcio disso. Grupos se unem para roubar e matar. Como é que vocês estão trabalhando para conter esta ação?

Manoel Vanderic - Para você ter uma ideia, eu estava conversando com a dona Alessandra, inspetora chefe da PRF: Anápolis é a cidade onde há mais roubo e furto de cargas do País. Algumas transportadoras proíbem o tráfego aqui no nosso perímetro durante a noite. Existe, lógico, uma estratégia das Polícias, tanto Civil, Militar, Rodoviária, principalmente da Rodoviária, que eu acredito ser uma instituição policial referência para a questão de trabalho, de produtividade, no sentido de coibir. Está sendo feito um trabalho. Eu não posso falar tudo, porque acaba prejudicando a investigação. Mas Anápolis, realmente, como você abordou, é um antro dessa criminalidade.

Vander Lúcio Barbosa - O senhor deu a entender, que as nossas leis penais não são tão ruins. Às vezes elas são mal aplicadas. Por que, segundo a sua opinião, isso acontece? O que fazer para que as ações da Polícia Civil, em especial, surtam efeitos mais eficazes?

Manoel Vanderic - A demanda aumentou muito. O que precisa é de mais efetivo, mais qualidade dos instrumentos que a polícia utiliza. De cinco anos para cá, de quando eu entrei para a Polícia, melhorou muito. E lógico que ainda tem que melhorar. Mas o que eu percebo é que esse não é o problema da segurança pública, não é o investimento da Polícia Civil e Militar: é o sistema prisional, o sistema carcerário brasileiro e a atuação do Poder Judiciário. Estes são os verdadeiros problemas da Segurança Pública. Hoje, 90% dos que chegam aqui e são autuados em flagrante, são reincidentes. E, estão na rua pouco tempo depois de terem sido presos. Vou citar o caso do Barbacena, que é o codinome dele. Ele foi preso em um semestre mais de quatro vezes, por furto e roubo. Saiu da cadeia em uma segunda-feira e, na terça já estava preso de novo. Depois de um mês, já estava solto de novo. Então, se ele ficasse, de fato, preso, não precisaria de a polícia estar mais estruturada e correr atrás dele tantas vezes. O Judiciário está caminhado para um lado muito perigoso, muito “garantista”, muito defensor dos direitos humanos em uma proporção tal que acaba desmerecendo a Polícia. Hoje, se preocupa mais com o bem estar do bandido, do que com o bem estar do policial. Chegamos ao caso de uma juíza declarar que um policial só pode revidar com um tiro, contra um bandido, quando o bandido atirar nele primeiro. Então, é uma inversão de valores extrema.

Vander Lúcio Barbosa - Na sua visão, o que está faltando para que Anápolis tenha uma melhor segurança?

Manoel Vanderic - Eu acredito que é uma sensibilização do Poder Judiciário, do Ministério Público e a união entre as instituições. Hoje, nós somos muito isolados. Hoje, o Ministério Público está lá no gabinete dele, o Judiciário no seu gabinete, o delegado aqui no seu e o comandante da PM lá. Há, inclusive, até uma má vizinhança, um desconforto entre as instituições. O sistema de informações que a polícia tem não é compartilhado com o Ministério Público e vice-versa. Então, nós somos muito apartados. Falta uma aproximação entre as instituições e a conscientização de que o fim de todo o trabalho é único: é o bem estar social.

Vander Lúcio Barbosa - Para encerrar, fale um pouco de sua intimidade, da sua rotina. Um homem jovem, bonito, elegante, resolvido profissionalmente... Existe vida, entre a distância que separa a sua casa desta delegacia?

Manoel Vanderic - Eu vivo isso 24 horas. Não consigo separar os mundos. Inclusive, eu fiquei, agora, quase semana sem dormir por causa dos problemas do menino esquizofrênico. Chegou ao ponto de um profissional da saúde falar que eu tenho que me internar, porque estou mais doido que ele. Eu assumo o problema. Pode ser uma falha, eu sei que, pessoalmente, eu vou sofrer as consequências. Já estou sofrendo desgaste de saúde, desgaste emocional, não tenho vida social e até afetiva. Eu chego em casa e não consigo nem conversar com a minha mãe. O estresse é grande. É tanto problema que quando chega em casa, quero silêncio. Mas, nem sempre, isso acontece. Nos casos mais grave eu compartilho o meu celular com as vítimas. Às vezes, meia noite, elas me ligam para dividir um problema, para chorar. Eu me envolvo vinte e quatro horas, sete dias da semana com meu trabalho. Até uma coisa que eu preciso mudar um pouquinho...

Autor(a): Vander Lúcio Barbosa

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