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Luz e esperança do outro lado do muro da clínica clandestina

Geral Comentários 26 de agosto de 2016

Ex-interno da clínica clandestina estourada pela polícia, em Goiânia, narra os traumas que viveu no local e mostra que encontrou o caminho da superação


Há poucos dias, a Polícia Civil resgatou vários pacientes de uma clínica clandestina para tratamento de dependentes químicos em Goiânia, que pertenceria a um homem chamado Bruno Volpato, segundo foi informado pelo delegado do caso, Sérgio Souza Arraes. O que os policiais encontraram na suposta clínica foi de estarrecer: um local sem condições de prestar um atendimento minimamente humano para quem realmente precisa fazer a travessia de uma fase de sofrimento com as drogas para uma nova vida. E, mais do que isso, relatos de maus tratos, uso de medicamentos sem orientação profissional e sem controle, submissão a castigos e uma espécie de lei da mordaça, para que nada do que ali ocorria chegasse ao conhecimento do outro lado do muro que separava os internos da realidade aqui fora.
O anapolino Braythiner Ramires era um dos internos da clínica, no período entre maio e outubro de 2015. Segundo narrou, em entrevista ao Jornal Contexto, foram seis meses de muito sofrimento. “Amadureci, pelo menos, uns seis anos nestes seis meses”, frisou o jovem, que decidiu contar a sua história na clínica dos horrores da Capital, para que a mesma sirva de exemplo e para que outros jovens e suas famílias possam compreender que há luz e esperança para tratamento dos dependentes químicos.
Hoje, Braythiner está recuperando aquilo que havia perdido antes de entrar para a clínica. Ele era estudante de Farmácia na Universidade Estadual de Goiás e, claro, teve de deixar o estudo para trás. Mas agora, ele segue a vida fazendo tratamento no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS Viver), uma unidade que especializada para o atendimento de dependentes químicos e que oferece suporte às famílias, visando a reinserção social de usuários de álcool e outras drogas. Lá, Braythiner não é só paciente, mas também voluntário. Pelo menos uma vez na semana, ele narra sua experiência para ter de volta a vida plena e tranquila. “Tem gente em situação muito pior do que eu estive”, pondera, acrescentando que não foi fácil a batalha. Agora com emprego e fazendo um curso de inglês, o rapaz é um exemplo de superação.
Ainda sobre o período em que passou pela clínica clandestina de Goiânia, Braythiner lembra que logo depois de ser encaminhado para o local, era obrigado a dar remédio para outros internos. Foi, também, submetido a maus tratos e à lei do silêncio. Com a ajuda de uma psicóloga que ia uma vez por semana na clínica, o jovem conseguiu material e começou a produzir um diário, com o título: “O engano da alma”, onde relatou alguns momentos ali vividos. E, foi com essa ajuda da psicóloga que ele conseguiu fazer uma pequena carta e enviar para sua mãe. Ocorre que, os donos da clínica, “ludibriaram-na”, ou seja, convenceram-na de que não eram procedentes as coisas que o interno havia relatado.
Neusair Lopes da Costa, a mãe de Braythiner, que o acompanhou durante a entrevista, ressaltou que, na época, a única coisa que pensava era descobrir um lugar onde o filho pudesse receber uma assistência devida. Porém, ela observou que não imaginava que algo de ruim, sim, poderia estar acontecendo na clínica, até, então, um local insuspeito. Tinha contrato de prestação de serviços e tudo o mais. Além de pagar um valor alto de mensalidade, médico e remédio, a mãe do rapaz ainda tinha de doar, mensalmente, uma cesta básica.
Braythiner relatou que, na época em que esteve na clínica, havia profissionais fazendo atendimento, mas acredita que os mesmos eram, também, ludibriados pela direção. Porém, destaca que a situação deve ter piorado muito depois que saiu de lá, conforme o que pôde ver nas notícias divulgadas pela imprensa sobre a falsa clínica. Para ele, nem de longe o tempo ali passado o ajudou na recuperação, que veio após iniciar o tratamento com a equipe multiprofissional do CAPS Viver.
“Nem sabia que tinha este tipo de atendimento e ainda, de graça. Foi uma benção”, desabafou Neusair Lopes, dizendo que este foi outro motivo que levou o seu filho a relatar sua história, ou seja, que há locais apropriados para lidar com uma doença séria que é a dependência química, que afeta não só o paciente, mas a família. Ela, também, recebe assistência no CAPS e, o fato de caminhar junto com o filho, fez, e faz, toda a diferença num caso como este.
Para Braythiner ficaram as lições, lições duras de quem viveu um trauma que, certamente, nunca será apagado de sua memória. “Sofri bastante, a gente ficava desconectado da sociedade; ficava num outro mundo, como se fosse um exílio”, frisou.
A amiga psicóloga, continua incentivando Braythiner a escrever, a relatar sua vida, compartilhar histórias com outras pessoas, para dar a elas o sentido de um novo caminho, de um novo sonho. Ele, inclusive, fez questão de compartilhar um dos escritos de seu diário com os leitores.

Retrato inconsciente

“Eu nunca pisei nas areias do seu Cartão Postal
Minhas calças e camisetas estão todas furadas.
Existe algum mal comportamental?
Pode até classifica-lo temporariamente, mas meu estilo de vida é atemporal.
Ou as minhas ‘drogas’ não combinam com essa época.
Tenho segredos empoeirados que você não pode ver. Um tipo de herança imortal.
Posso parecer disperso, mas esses devaneios encontram uma terra fértil em mim.
Um estilo chamado vigília. Parece fantasia, mas todos vocês vão ‘morrer vivendo’ de realidade.
Presos na carne e gravidade. Algumas coisas não deveriam ser ditas.
Não somos um exemplo de grupo. Olhamos além de suas medalhas e etiquetas. Estou quebrando estes mitos de vitrine. Dançando em cima do seu caixão de princípios.
Pequenos olhos. Você pode notar? Grandes flores devem brotar. Pequenos homens querem cortá-las.
Pequenas damas procuram ganhá-las. Enquanto meus pés correm...
Estão satisfeitos, ou fingem isso? Todos apreciam o seu tipo. Isso vai durar até você morrer. Não preciso dos seus ‘likes’ para ser reconhecido...
Somos lindos à nossa maneira. Enquanto os ‘homens da arena’ matam e morrem sem importância, vivo a verdade da minha glória!”.

Autor(a): Claudius Brito

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