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Grupo do A.A. mostra que é uma porta aberta para uma nova vida aos dependentes do álcool

Especial Comentários 14 de fevereiro de 2019

Em Anápolis, o Grupo Aurora reúne-se com frequência e mostra que é uma porta aberta para uma nova vida aos dependentes do álcool


Uma sala pequena, na região central de Anápolis, abriga a história de muitas pessoas que lutam contra uma doença cruel: o alcoolismo. O local é simples. Não tem uma liderança: todos são líderes. Não há orientação religiosa; todas as religiões são respeitadas. Não há preconceito de cor, gênero e ideologia. Entre as poucas exigências, está a manutenção do anonimato, a fim de se evitarem exposições que gerem algum desgaste ou transtorno pessoal e/ou familiar. É a ONG Alcoólicos Anônimos que, hoje, está presente em mais de 200 países e, em Anápolis, com grupos atuando desde 1974.
No Grupo Aurora, onde a reportagem do Jornal CONTEXTO esteve presente para acompanhar uma sessão, na noite da última terça-feira, 13, há uma inscrição no quadro: “Dar exemplo não é a melhor maneira de convencer, é a única!”. E, na mesa, uma placa tem o dizer: “Evite o primeiro gole 24 horas”.
As reuniões do A.A. não são obrigatórias, mas alguns participantes estão no grupo há duas ou três décadas, levando a sua palavra e ouvindo aqueles que chegam e travam a batalha para vencerem o vício do álcool. O que, na opinião de todos, não é uma batalha fácil.
As experiências narradas na noite comprovam esta realidade. Foram dez testemunhos, em cerca de duas horas de reunião. O primeiro depoimento retratou momentos de dor de um ex-alcoólatra que, no auge do vício, tinha uma filha pequena e esta, embora com pouca idade, já reconhecia pelo bater da porta do carro, a hora em que o pai chegava em casa embriagado e, certa vez, passou vergonha na família. Isto, porque havia parado de beber e, numa festa em uma fazenda, aceitou o primeiro gole e, a partir daí, ficou três dias “desligado” e até mesmo sem tomar banho. Ele, entretanto, encontrou o cainho do A.A. e a partir daí, disse: “a bebida para mim morreu”.
O segundo participante foi enfático: “A vida no álcool não trouxe nada de bom para mim e para as pessoas que me amavam”, disse, relatando que teve fé em Deus, porque sozinho não conseguiria vencer a luta. “Aqui no grupo ficou mais fácil, porque é uma terapia compartilhar histórias. Aqui somos todos iguais e temos a oportunidade de fazer um inventário da vida e de buscar o perdão das pessoas que magoamos”. E, ainda, brincou: “Com sobriedade a gente muda o aspecto e fica, até, mais bonito”.
No terceiro depoimento da noite, mais um relato apontou a tragédia que a bebida pode representar não só na vida da pessoa, mas da família. Entretanto, por conta do tabu e do preconceito que, ainda, envolvem o problema, muitas das vezes, as dificuldades ‘são jogadas para debaixo do tapete’. “No começo, bebia pela diversão, pelo prazer. Depois, somente para me embriagar. O alcoolismo é a droga mais perniciosa que existe”, desabafou.
“Quando cheguei a Anápolis, estava muito embriagado. Fui internado em clínicas de recuperação por várias vezes”, disse outro membro do grupo, relatando que o álcool o distanciou da família, retirou o emprego. “Foi cada pancada mais forte do que a outra”, disse, acrescentando que chegou a dormir nas ruas. Mas, teve uma indicação ara conhecer o A.A. “A partir daí, mudou tudo, quando comecei a evitar o primeiro gole. Fui reformulando a minha vida, porque o álcool havia tirado tudo”.

Loucura e fatalidade
Segue a reunião, após uma pequena pausa para o lanche e um alcoólico relatou a mudança em sua vida ao entrar para a “irmandade”. “O alcoolismo é uma doença que leva a dois caminhos: a loucura ou a fatalidade”, disse o participante, observando que o álcool faz com que a pessoa tenha uma percepção distorcida da realidade e isso afeta a realidade. “É uma doença que humilha, que exclui a pessoa da sociedade”, pontuou.
Uma participante relatou que a vida no álcool a fez realizar coisas ruins. E que, após iniciar o programa, teve uma grande satisfação na vida, que foi estar com os filhos e netos “limpa”, ou seja, sóbria. “É uma luta, Deus me livrou da morte por muitas vezes. Ele me trouxe aqui. Quero continuar voltando”, narrou, dizendo que a sobriedade, seguindo os passos do A.A. está ajudando que ela tenha uma vida cada vez melhor.
“Tomei a decisão de não mais me matar aos poucos”, sentenciou o oitavo membro a dar seu depoimento. “Quando cheguei (no A.A.) estava desconfiado, achei que o povo bebia escondido. Mas, me curei e me sinto muito bem sentado aqui conversando com os companheiros”, disse, assegurando que a bebida foi uma porta para que ele se envolvesse com outras drogas, levando-o “ao fundo do poço”. “Perdi muita coisa: a oportunidade de ter uma vida, um trabalho que me rendesse melhor, uma família. Tinha filhos, mas fique distante e, hoje, temos um relacionamento, uma aproximação. Não há como voltar atrás a infância que não vivi com eles. Hoje, sei que é só não beber que a vida funciona, posso voltar a estudar, ter um bom trabalho e ter uma família”.
O penúltimo membro participante exaltou o sentido da gratidão. Ele narrou um encontro que teve com outro alcoólico, que já com a vida reestruturada, após deixar a bebida seguindo as orientações do A.A. disse que não vinha mais frequentando as reuniões “por falta de tempo”. “Eu completei 25 anos quando cheguei. Ouvi muitas pessoas e hoje quero dar a minha palavra. As pessoas que ganham uma coisa maravilhosa, não podem esquecer a gratidão a Deus, em primeiro lugar, e depois ao A.A. Aqui vou continuar, porque não tem outro lugar onde eu possa entrar, sair e ser a mesma pessoa, ser igual a todos”, sintetizou.
No último relato, um membro lembrou que chegou para participar da primeira reunião em estado deplorável. “Cheguei arrasado, endividado, com o corpo inchado. Demorei a subir a escada de onde era a reunião, de tão fraco”, sublinhou, acrescentando que, desde então, muita coisa aconteceu na sua vida. Mas, ele seguiu o programa e, mesmo nos momentos mais terríveis, como a perda de dois filhos assassinatos, conseguiu manter-se no rumo. Na perda do segundo filho, que conforme relatou, era um pai exemplar, ele saiu do sepultamento e foi para o A.A. Ele está há 33 anos no grupo, levando a sua palavra, o seu exemplo para ajudar ao próximo.

Berço
Este é o Alcoólicos Anônimos, que surgiu no ano de 1935, nos Estados Unidos, por iniciativa de Bill Wilson, que era corretor da Bolsa de Nova Iorque e do médico Roberto Robert Holbrook Smith, de Ohio, que tinha um grave problema de alcoolismo. Na época, ainda sob a ressaca da depressão da bolsa de valores que provocou uma onda de suicídios, conversaram longamente e descobriram nesta imersão, o caminho de ajuda para eles próprios e para outras pessoas.
O A.A. ressalte-se, não vive de doações. É a própria comunidade que divide entre si as despesas com o aluguel, com o lanche e outras atividades. Nada que chegue, nem de perto, às vidas que foram e as que podem ser salvas no gesto simples de conversar, de abraçar, trocar experiências. Voltar para casa e poder dizer, a cada dia: “24 horas sem o primeiro gole!”

SERVIÇO
Alcoólicos Anônimos
Grupo Aurora
Reuniões 3ª, 5ª e sábado
20 horas
Domingo
10 horas
Endereço: Rua Gal.
Joaquim Inácio, 86 Centro
Acima do Terminal Urbano
Fone: (62) 3223-0445

Autor(a): Claudius Brito

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