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Ernani de Paula: Um vulcão adormecido

Política Comentários 22 de maio de 2009

Nenhum prefeito na história de Anápolis foi tão polêmico, imprevisível, sedutor e controverso como Ernani de Paula, cassado pela Câmara Municipal em 2003 e, hoje, afastado da política.


Tão meteórica como a entrada, foi a saída de Ernani José de Paula do cenário político de Anápolis. Ele que, em 2000 assombrou os meios políticos de Goiás, vencendo, com folga, as eleições para prefeito da segunda maior cidade do Estado à época, durou menos de três anos no cargo, sendo cassado pela Câmara Municipal, depois de uma intervenção decretada pelo então Governador Marconi Perillo. Contra Ernani pesava uma série de acusações e denúncias, principalmente sobre desmandos administrativos. Sua saída foi antecedida por um processo de cassação política, via Câmara de Vereadores, alicerçada por protestos de ruas, manifestações de setores organizados e uma série de outros procedimentos contrários à sua permanência no comando político/administrativo do município. Sobre Ernani de Paula muito se falou, muito se escreveu, muito se comentou e muito se debateu. Entretanto, sua passagem pela política de Anápolis deixa para trás uma série de indagações sem respostas e, até, quem sabe, lendas e estórias que jamais poderão ser comprovadas. Quando assediado para falar sobre a política de Goiás, e, muito particularmente a de Anápolis, ele desconversa, afirmando que, no momento, está cuidando de sua vida particular.

Nascimento político
Ernani José de Paula, filho do empresário paulista Ernani Bicudo de Paula, proprietário da Universidade São Marcos, ficou conhecido em Anápolis como o “dono da Fazenda Barreiro”, uma propriedade rural modelo, no estilo das mais modernas estâncias canadenses ou norteamericanas, que serviu, inclusive, de cenário para uma novela (Estrela Guia, em 2001) da Rede Globo, e que por sinal, fica no município de Silvânia, divisa com Anápolis. Na fazenda funcionavam um moderno instituto de pesquisas genéticas de gado bovino (Instituto Melon) e uma série de outros projetos avançados. Nos anos 90 a Fazenda Barreiro se tornou um dos “cartões postais de Anápolis”, ponto de visita obrigatória de políticos, empresários, embaixadores e cônsules que passavam pela cidade.
Este prestígio de Ernani despertou, assim, o interesse dos dirigentes políticos, a ponto de, na véspera das eleições municipais de 2000, o então fazendeiro haver sido convidado por praticamente todos os partidos, para ser candidato a vice-prefeito. O raciocínio rápido, próprio de Ernani, funcionou da seguinte maneira: “se sirvo para vice de todos os outros, sirvo, também, para ser candidato a prefeito”. Foi o que aconteceu. Ernani inovou desde a concepção da candidatura, escolhendo o PPS (sucedâneo do Partido Comunista Brasileiro) para se filiar. Para vice, convidou o então vereador e professor Pedro Sahium (PSB). Assim, Ernani de Paula, oriundo da tradicional e conservadora cidade de São Paulo, empresário de sucesso; dono de uma invejável cultura; homem acostumado a viagens internacionais; sócio do ex-ministro da Educação Pimenta da Veiga; compadre do ex-deputado federal, hoje Governador de Minas, Aécio Neves; com uma visão super-inovadora e moderna, se candidata por um partido com doutrina esquerdista. Mas, novamente ele surpreendeu, vencendo, com certa facilidade, a disputa pela Prefeitura de Anápolis. Obteve 50.204 votos, contra 37.249 de José Lopes, candidato do PSDB, do então imbatível Governador Marconi Perillo; 24.140, do deputado federal Rubens Otoni (PT), uma das mais fortes lideranças políticas da cidade; 18.407 de Adhemar Santillo (PMDB) então prefeito e candidato à reeleição e, 6.654 de José de Lima, candidato do PPB.

Derrocada
Em pouco tempo à frente da Prefeitura, entretanto, Ernani de Paula revelou seu lado impulsivo. Adotou uma série de projetos de grande alcance sócio/cultural, todavia, sem o respaldo político necessário. De cara rompeu com o partido (PPS) que o abrigou em sua sigla. Meses depois, brigou com o vice-prefeito Pedro Sahium. Enquanto capitalizava a simpatia da mídia regional e, até nacional, deixava fendas irreparáveis na política doméstica. Em pouco tempo estava rompido com muita gente. Notabilizou-se pelo excesso de modificações no secretariado (cerca de 70, ao todo) e pela impetuosidade com que tratava correligionários e amigos. Ernani de Paula era inusitado em tudo. Dentre as surpresas que o caracterizavam, costumava descer de helicóptero nos bairros e vilas da cidade, onde a população delirava ao vê-lo. Essa imagem, entretanto se desgastou logo, principalmente depois dos entreveros com as lideranças políticas de Goiás. Ele, que estava há pouco tempo à frente da Prefeitura, começou a falar em ser candidato a governador do Estado. Foi o começo de fim. O desgaste se agravou e Ernani começou a ter dificuldades administrativas, atrasou, por meses, o pagamento dos servidores públicos municipais, criando contra si um clima de muita hostilidade.
O fim de Ernani de Paula como prefeito foi determinado pela intervenção do Governo do Estado, que mandou para Anápolis o então vice-governador Alcides Rodrigues (PP). Em 14 de novembro de 2003, Ernani foi cassado pela Câmara, assumindo seu vice, Pedro Sahium. Hoje, aos 52 anos de idade, ele se dedica, inteiramente, aos negócios em São Paulo. É pró-reitor da Universidade São Marcos, uma das maiores e mais modernas daquele estado e tem outros projetos econômicos e comerciais em andamento. Separado da mulher Sandra Melon (primeira suplente do senador Demóstenes Torres-DEM) ele, periodicamente (algumas vezes de surpresa), vem a Anápolis onde ainda mantém a Fazenda Barreiro e cultiva muitas amizades. Sua última incursão política foi no ano passado, quando se filiou ao PRB, com a possibilidade, inclusive, de ser candidato a prefeito. Este projeto não vingou e Ernani nem participou direito do processo sucessório em 2008. Veio a Anápolis somente para votar.
Há quem diga que Ernani de Paula foi um furacão que passou pela política de Anápolis, deixando rastros praticamente impossíveis de se apagar. Mas, na verdade, Ernani de Paula é, hoje, um vulcão político adormecido, que pode (ou não) entrar em erupção a qualquer momento. Quando isto acontecerá (se acontecer) ninguém sabe. Nem ele próprio. Este é o “jeito Ernani de ser”.

Autor(a): Nilton Pereira

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