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Emanuelle Muniz e Emanuelle Ferreira: passageiras da agonia

Violência Comentários 04 de maio de 2017

Nomes iguais, idades iguais e destinos iguais: morte cruel na calada da noite. Sonhos interrompidos


Emanuelle Muniz Gomes tinha 21 anos. Era transexual. Bela; extrovertida; meiga, alegre e filha carinhosa. Apesar da pouca idade, já havia passado, com sucesso, pelos bancos da faculdade. Amiga inseparável da mãe, Edna Girlene Gomes, ela nunca escondeu - e sua mãe sempre a apoiou - o desejo da redefinição sexual (trocar de sexo), atitude amparada por lei no Brasil. E, estava prestes a fazer isso, quando, enfim, poderia oficializar o nome, já que era registrada como Rômulo Mateus Gomes. A cirurgia já estava, até, agendada.
Com um carisma imenso, Emanuelle colecionava amigos por onde passava. Trabalhava honestamente, não fazia mal a ninguém. Muito pelo contrário. Era cativante, gentil e alto astral. Mal sabia ela que tudo isso iria terminar de forma trágica; absurda; cruel, maldosa e covarde, dessas coisas que são inexplicáveis à luz da razão.
Na fatídica noite de 26 de fevereiro, domingo de carnaval, ela se preparou, como nunca, para sair. Como sempre, na companhia da mãe. Daquela vez, levaram um amigo da família e foram a uma boate no Bairro Jundiaí. Lá, ela dançou alegremente, conversou com amigos e se divertiu bastante. Quem a viu naquela ocasião, disse que ela “parecia adivinhar que seria sua última noite neste mundo”. E, lamentavelmente, era uma previsão acertada.
A tragédia
Hora de ir embora, dia quase amanhecendo. Emanuelle avisou à mãe que iria chamar um taxi. Minutos depois, voltou, acompanhada de um rapaz, que se ofereceu para dar carona aos três: Emanuelle, a mãe Edna e o amigo. Tudo certo. Pagaram a conta e saíram da boate. Só que, quando chegaram ao pátio de estacionamento, a mãe de Emanuelle desconfiou de algo. “Coração de mãe não se engana”, costuma-se dizer. E, Edna não estava enganada. Ao ver que outros homens estavam dentro do carro, um FIAT Pálio branco, tentou convencer a filha a não embarcar. Mas, era tarde.
Os corpulentos homens, depois identificados como Sérgio Cesário Neto (20 anos); Daniel Lopes Caetano (20 anos), Márcio Machado Nunes (18 anos) e Reinivan Moisés de Oliveira (18 nos), impediram que ela descesse do veículo. Além disso, arrancaram o celular de suas mãos e saíram em alta velocidade, sem, antes, agredirem a Edna que ficou jogada no chão, ferida no rosto, ao tentar impedir que a filha fosse levada pelos estranhos.
Polícia acionada, buscas por toda a Cidade, até que o dia clareou. Edna não desistiu, um segundo sequer, de procurar a filha. Foi a hospitais, ao IML, delegacias de polícia e a outros locais de Anápolis, na esperança de encontrar Emanuelle. Já por volta de sete da manhã, a descoberta terrível: o corpo de Emanuelle, com o rosto totalmente desfigurado, estava em meio a um “lixão” à beira da estrada que demanda a Gameleira de Goiás, entrando pelo loteamento “Terras de Alphaville. Quis o destino que Edna encontrasse o cadáver da filha daquela forma. Seu mundo caiu. Por uma dessas coincidências inexplicáveis, o carro em que Edna estava, pertencente a uma amiga da família, sofreu uma pane, justamente, no local onde jazia o corpo de Emanuelle. Impelida como que por uma força estranha, ela caminhou alguns passos para ver o quadro que jamais imaginaria ver e que jamais gostaria de ver. A filha nua, com o belo rosto esmagado por pedaços de concreto. Polícia, velório, sepultamento.
Resignação de mãe
Sem forças e sem tempo para chorar a perda da filha e companheira, Edna continuou na luta em busca de explicações e justificativas para saber os motivos, as razões de tamanha dor. Andou pelas delegacias de polícia, deu incontáveis entrevistas nas emissoras de rádio e TV, jornais e revistas. Ela queria uma explicação para a morte de Emanuelle. E, esta explicação, finalmente, veio. Os algozes da filha de Edna foram capturados um por um. Três deles residentes na cidade de Goianésia, mas que têm parentes em Anápolis, na região do Conjunto “Filostro Machado”. A Polícia Civil, sob o comando do delegado Cleiton Lobo, juntou as peças do quebra-cabeças e descobriu que, dias antes do crime, alguns elementos, ocupantes de um carro semelhante ao que foi utilizado no rapto de Emanuelle, haviam participado de uma briga na referida boate. Os agentes iniciaram o trabalho de investigações e foram checando provas e encontrando evidências da participação do quarteto no caso. Não restou dúvidas quanto à autoria e, na terça-feira, 02 de abril, finalmente, a sociedade anapolina ficou sabendo dos detalhes.
Mesmo com os autores negando a prática da homofobia para matarem Emanuelle, restou provado que teria sido, de fato, este, o real motivo da crueldade. Confessaram, por fim, agressões sexuais praticadas contra a vítima e o esmagamento de seu crânio com pedradas. A princípio eles alegaram que queriam, apenas, o telefone celular da vítima, mas que, Emanuelle se indispôs com o grupo e reagiu. Ninguém acreditou nesta versão, pois, uma pessoa frágil e delicada como ela, não teria qualquer chance em uma luta corporal contra quatro homens de boa compleição física. Os quatro continuam presos na Cadeia Pública de Anápolis à disposição da Justiça.
Quanto a Edna Girlene Gomes, resta o consolo de ver os algozes de sua filha atrás das grades. Ela disse que, agora, vai recolher-se ao luto e chorar a perda de Emanuelle. À sociedade anapolina, resta apoiá-la e esperar que a justiça seja, de fato, aplicada para que fatos como este não se repitam. A opinião geral é de que, realmente, tratou-se de um crime de intolerância de gênero e homofobia, tendo em vista a identidade de Emanuelle.
Outra Emanuelle
Na manhã de terça-feira, 02, enquanto a Polícia apresentava, oficialmente, os matadores de Emanuelle Muniz Gomes, outra Emanuelle era encontrada morta, também de forma cruel. Seu corpo jazia em meio a um pasto, nas proximidades do loteamento Aldeia dos Sonhos, região Norte de Anápolis. Estava amordaçada, amarrada com as mãos para trás e com a cabeça estourada por tiros de arma de fogo, provavelmente, escopeta.
Emanuelle Ferreira da Silva tinha 20 anos, era natural do Estado do Pará e morava no vizinho município de Campo Limpo de Goiás. As informações preliminares dão conta de que ela era amasiada de Josué Carvalho, (ela tinha esse nome tatuado em um dos braços) também, encontrado morto na cidade de Senador Canedo e que, antes, vivera com Marcelo de Tal. A Polícia de Anápolis está participando de uma força tarefa que pode levar às explicações e às justificativas do crime. Não se sabe, por exemplo, se Emanuelle Ferreira foi morta em Anápolis ou se seu corpo foi trazido para a Cidade a fim de se dificultarem as investigações.
De qualquer forma, Anápolis inicia o mês de maio assustada com u elevado índice de crimes contra a pessoa, a despeito do esforço desenvolvido pelas polícias Civil e Militar para oferecer a sensação de segurança tão almejada pela sociedade.

Autor(a): Nativo Dantas

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