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Dezenas de famílias vivem do lixo

Cidade Comentários 18 de abril de 2010

O Jornal Contexto teve acesso ao trabalho dos catadores de lixo no momento em que realizam a coleta de resíduos no aterro sanitário, mais conhecido por “lixão”. A falta de opção faz com que este trabalho seja a principal fonte de renda para aproximadamente 300 pessoas.


O dia começa cedo para os mais de 300 catadores de lixo do depósito mantido pela Prefeitura de Anápolis nas proximidades do Conjunto “Filostro Machado”. Logo no início da manhã eles começam a chegar ao local, onde são depositados resíduos sólidos produzidos no centro urbano de Anápolis. O “lixão” é fonte de renda para grande parte das famílias do Conjunto “Morada Nova”, que vendem o material reciclável, como plástico, papel, ferro, cobre e alumínio. Há, também, o deslocamento de pessoas vindas de outras regiões, como Bairro Recanto do Sol e Bairro de Lourdes.
Alguns exercem a atividade há bastante tempo. É o caso de Cleonice Alves Martins, que trabalha no “lixão” há aproximadamente 20 anos. Casada e mãe de três filhos, ela afirmou que o dinheiro conseguido na coleta do material reciclável foi suficiente para o sustento dela e da sua família durante todo esse tempo.
Alguns trabalhadores conseguem boa renda vivendo do lixo. “Às vezes, chegamos a ganhar de R$ 1500,00 a R$ 2000,00”. Questionada se trocaria o trabalho no lixão por um emprego de carteira assinada, ela afirma: “em nenhum lugar da cidade eu ganharia o que ganho aqui. Além disso, acabei gostando de trabalhar no local”. Entretanto essa não é a realidade de todos. A maioria ganha na faixa de R$ 400,00 a R$ 600,00 por mês.

Perigos
Segundo a catadora, os “garimpeiros do lixo” não trabalham sem segurança. “Cada um traz sua luva e seu par de botas. Além disso, usamos calças e blusas compridas, para nos proteger”. Imagens de dentro do lixão, entretanto, mostram que faltam medidas que diminuam os riscos para quem trabalha diretamente com o resíduo. O uso de máscaras, por exemplo, é obrigatório nesse tipo de atividade.
Os catadores entram em contato direto com o lixo que é descarregado todos os dias. Alguns moram nas proximidades do lixão. Além disso, é comum se observar animais domésticos convivendo com aquela comunidade.
Esse, entretanto, não é o único perigo de se trabalhar no “lixão”. Existe o risco de atropelamentos, uma vez que no local o tráfego de veículos é intenso. Utilitários, carretas, furgões e caminhões, chegam a todo o momento para o despejo de dejetos.
Para Cleonice, o momento mais marcante durante os anos em que trabalhou no lixão foi o atropelamento de uma moça no local há aproximadamente cinco anos. “O lixão tem muitos fios espalhados, é muito fácil a gente tropeçar no meio dos entulhos”. Ela lembra com tristeza a morte da companheira de trabalho: “Eu não estava trabalhando no dia do acidente, mas todos ficaram chocados com o que aconteceu”.

Cenário
A cena mais chocante no trabalho dos catadores é o momento em que os caminhões da Prefeitura chegam ao lixão para despejar os entulhos. Fotos exclusivas mostram os trabalhadores reunidos à espera do veículo, até que a comporta por onde o lixo sai é aberta. Nesse momento, todos se apressam para coletar a maior quantidade possível de produtos recicláveis, que são vendidos geralmente nos finais de semana.
A catadora Cleonice afirmou que os trabalhadores possuem uma espécie de pacto entre si, e cada um respeita o espaço do outro. “Somos solidários uns com os outros; todos têm os mesmos direitos durante a coleta”.
A reportagem do Jornal Contexto constatou que os catadores de lixo se acostumaram com o trabalho que realizam. Dessa maneira, não têm noção exata dos riscos nem do significado de se trabalhar nas proximidades do lixão. Para eles, lidar com resíduos é um trabalho como qualquer outro. “O lixo hospitalar é separado do lixo comum, então não tem perigo nenhum”, afirmou Cleonice. Crianças e adolescentes são proibidos de entrar no local.

Poder público
Ainda não existe por parte do poder público municipal ação concreta objetivando a regularização dos trabalhadores do lixão. Dessa maneira, falta fiscalização sobre as condições de trabalho e higiene dos catadores. “Aqui é cada um por si e Deus para todos”, afirmou Cleonice. Ela disse também que a Prefeitura não realiza visitas ao local nem procura os catadores para que a situação de todos possa ser regularizada.
Para o secretário de Desenvolvimento Urbano e Sustentável do município, Clodoveu Reis Pereira, “é preciso se criarem cooperativas com os catadores e promover o tratamento adequado do lixo do município. Entretanto, as dificuldades são grandes”. Não foi dado pelo secretário, entretanto, prazo para a criação dessas associações.
Entre as dificuldades de que fala o secretário, está a falta de um sistema adequado que promova o tratamento do lixo na cidade. Para ele, “ainda há um trabalho longo pela frente a ser feito. Devemos implantar, em breve, por exemplo, a lagoa de tratamento do chorume”. O chorume é um líquido de cor escura proveniente da decomposição do lixo. A sua infiltração no solo pode contaminar lençóis freáticos e mananciais de água potável.
Os catadores de lixo apontam outro problema: o trabalho no lixão é realizado por falta de opção. Muitos têm o lixo como única fonte de renda de suas famílias. Tiago Alves Ribeiro, filho de Cleonice, é catador de lixo também. Segundo o rapaz, que cursa o segundo grau, “se essas famílias forem retiradas dali, não terão para onde ir, vão passar necessidades”. Quando questionado se quer continuar trabalhando no lixão, ele afirma: “Não, quero voar mais alto. O meu sonho é um dia poder ter um diploma de designer gráfico e poder trabalhar legalmente”. Tiago atua também como pedreiro no centro da cidade.
A casa de Tiago funciona como uma espécie de depósito de materiais reciclados. Tudo o que é coletado pelo jovem e sua mãe é levado para o local, que fica no Jardim Primavera. Em seguida, é feita a separação entre tipos de papel e plástico e alumínio. O trabalho é feito coletivamente, onde as tarefas são divididas. A falta de uma política pública específica para os catadores faz que eles realizem uma espécie de autogestão. “Nós mesmos temos de nos organizar, realizar o nosso trabalho, tomar as precauções necessárias para evitar acidentes”, afirmou Cleonice.

Perspectivas
Durante a realização da reportagem, o Jornal Contexto presenciou uma realidade á parte, vivida pelos catadores de lixo da cidade. A legalização dos trabalhadores esbarra na falta de uma política pública objetivando o tratamento adequado dos resíduos.
Além disso, muitas famílias escolhem o lixão como local de trabalho após perderem seus empregos em empresas convencionais. Dessa maneira, os catadores são unânimes em afirmar que a medida correta não seria a retirada das famílias do local. Assim, acredita-se que uma política de remanejamento para outros postos seja uma solução viável.

Reciclagem
O trabalho de tratamento do lixo na cidade tem a colaboração de associações independentes e organizações não governamentais (ONG’s). Um desses trabalhos é realizado pelo Núcleo de Apoio e Assistência aos Portadores de Câncer do Município de Anápolis, que tem como presidente Mônica Beatriz Pereira Hajjar. Segundo Mônica, “os materiais recebidos são reciclados por voluntários, e depois vendemos os produtos em bazares”. Todo o dinheiro da venda dos utensílios é revertido para o tratamento de doentes de câncer.
Números de 2009 apontam que o núcleo atendeu a 290 pacientes em sua sede, que fica na Avenida Madre Maria dos Anjos, Bairro Jundiaí. É feita a distribuição gratuita de remédios mediante a apresentação de receituário médico. Foram doados 3.414 vales-transporte e 587 passagens para Goiânia, viabilizando o deslocamento dos pacientes aos locais de tratamento e consultas.
O núcleo, também, disponibilizou 124 cobertores, 587 cestas básicas, suplementação alimentar, fraldas descartáveis, luvas plásticas, cadeiras de rodas e outros materiais para os portadores de câncer.

Autor(a): Felipe Homsi

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