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Caixeiros viajantes

Boa Prosa Comentários 27 de agosto de 2010

Sempre foram três amigos inseparáveis. Sílvio, Edirson e Nelson. Trabalhavam no mesmo ofício: Eram viajantes, hoje mais conhecidos por representantes de vendas.


Sempre foram três amigos inseparáveis. Sílvio, Edirson e Nelson. Trabalhavam no mesmo ofício: Eram viajantes, hoje mais conhecidos por representantes de vendas. Rodavam todo o Vale do São Patrício, o Norte de Goiás (hoje Tocantins), Maranhão e, às vezes, o Estado do Pará, vendendo medicamentos e perfumes.
Outra coisa que tinham em comum: Eram apaixonados por futebol, a ponto de levarem, na bagagem, sempre, uma bola de futebol de salão (hoje futsal) ou de futebol de campo. Onde paravam, logo arranjavam uma “pelada” com o pessoal do lugar. Corriam os anos 70. Viajar pela Belém/Brasília era como uma aventura. Só se marcava o dia de sair. O de chegar, só Deus sabia. Quando não era lama, era buraco. O pior é que os três, embora representantes de empresas diferentes, estavam, quase sempre, no mesmo hotel, na mesma pensão. Tem mais: saiam da BR e entravam nas chamadas “bibocas”, cidadezinhas sem a mínima infraestrutura. Mas, tinham de vender.
Também chamava a atenção no trio, talvez o mais interessante: o fato de eles, sempre, se prontificarem a trazer (e levar) notícias de parentes dos moradores daquelas paragens, que residiam em Anápolis e região. Carinhosamente pegavam as cartas, os bilhetes, os pacotes, com o compromisso de entregarem aos destinatários. Chegavam a ponto de avisar: “Amanhã a gente está saindo, quem tiver encomenda ou carta, entrega pra nós hoje”.
Mal sabiam, entretanto, os remetentes, que muitas das correspondências eram abertas e o conteúdo era lido. Segundo eles, tinha cada uma!!!
“Mãe, infelizmente, fiquei grávida e o fulano não quer casar”. “Querida, este mês não dá pra mandar dinheiro. Mês que vem, eu mando”. “Papai, manda mais dinheiro”. “Meu bem, vamos ter de esperar mais um pouco pra gente se casar”. “Espero que goste do requeijão e do doce de buriti”. E, assim por diante.
Os três, na maior algazarra, faziam a “triagem” das cartas e só entregavam as que, realmente, tinham objetividade. Os doces, queijos e requeijões eram devorados na primeira parada. “Engravidou por que deu sopa”. “Não vai mandar dinheiro porque arranjou outra mulher”. “O pai não vai mandar mais dinheiro não”. “Vai casar nada, quer só aproveitar-se da menina”, comentavam. E, ato contínuo, jogavam as cartas fora. Quando da outra viagem, que demorava até, meses para acontecer, não mais se avistavam com os remetentes e/ou destinatários. Hoje, sessentões, os três ainda se encontram, de vez em quando, no estabelecimento comercial de um deles, que fica no centro de Anápolis e dão boas gargalhadas ao se recordarem do tempo de caixeiros viajantes.

Autor(a): Nilton Pereira

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