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Brasileiros deseja maior regulação para mídia

Geral Comentários 23 de agosto de 2013

Levantamento aponta que 70 por cento dos entrevistados querem modificações no sistema nacional de comunicação


Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, publicada esta semana, revela que sete em cada dez brasileiros querem mais regras para o conteúdo da programação veiculada na tevê. Ao todo, 46% da população são favoráveis a que essa regulamentação seja definida e fiscalizada, através do chamado ‘controle social’, por um “órgão ou conselho que represente a sociedade”. Foram ouvidas 2.400 pessoas em 120 municípios, entre abril e maio, para mapear a percepção dos brasileiros sobre os meios de comunicação, além de formular perguntas relativas ao grau de concentração das emissoras, regime de concessões, penetração da internet, neutralidade da cobertura da imprensa e representação dos setores da sociedade na mídia. A margem de erro oscila entre 02 e 05 pontos percentuais.
De acordo com o levantamento, a televisão continua sendo uma preferência nacional: 94% dos brasileiros cultivam o hábito de assistir tevê e 82% recorrem a ela diariamente. Mais que isso: quase 90% das pessoas usam a tevê para se informarem sobre o que acontece no mundo. O rádio aparece em segundo lugar no gosto popular, atingindo 79% da população. A internet surge na terceira colocação, ao lado dos jornais impressos: 43% afirmam ter acesso à rede. Dessa parcela, 38% usam o Facebook e 25% o Google.
A respeito dos jornais impressos, a maioria das pessoas que afirma lê-los (46%) recorre a títulos locais ou regionais. “Apesar de todo o crescimento da internet, a radiodifusão ainda tem um poder de influência estrondoso”, observa Pedro Ekman, membro do Coletivo Intervozes, durante o lançamento da pesquisa.

Empresas
“Esse País só será democrático quando nos intervalos da programação for informado que as emissoras são concessões públicas, e que as concessões públicas têm começo e fim”, ressalta Laurindo Leal Filho, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Este professor, também, comentou outro dado da pesquisa: cerca de 70% dos brasileiros não sabem que os canais de tevê aberta pertencem ao Estado e 60% acreditam que as emissoras são empresas privadas como “qualquer outro negócio”. A população tampouco sabe que os meios de comunicação estão concentrados nas mãos de alguns poucos grupos familiares.
Mais da metade acredita que o número de grupos privados que controla as emissoras é grande, diz o estudo. Para 25% é médio e, apenas, 12% avaliam que é pequeno. Porém, quando informados de que “a maior parte da mídia no Brasil é controlada por cerca de dez famílias”, 40% dos entrevistados avaliaram que isso é ‘ruim para o País’. Para 23%, ‘é bom’. “Mesmo que as pessoas não saibam que os canais de tevê são concessões públicas, elas acham que as comunicações precisam de mais regras”, continua Ekman. O presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, concorda com estas considerações.
“Temos que fazer com que as emissoras informem os espectadores que operam concessões públicas. Deveria ser obrigatório”, argumenta. “O governo também deveria dar publicidade à existência da concentração midiática. As pessoas avaliam que as afiliadas das grandes redes de TV espalhadas pelo País, por exemplo, são empresas à parte. Mas elas retransmitem conteúdo”, disse Borges.

Desafios
De acordo com Altamiro Borges, o nível de desconhecimento sobre concentração midiática e concessões públicas é um fator positivo para grandes emissoras, e apresentam dificuldades para as organizações que lutam pela aprovação de uma lei para democratizar as comunicações do País.
Borges assegura que “outros dados podem provocar um grande pesadelo para as chamadas grandes emissoras: a população está descontente com a programação. E as pessoas sabem que a mídia defende o interesse dos donos das emissoras e das elites do País, e que os jornalistas não têm autonomia para trabalhar”.
A FPA detectou que 35% dos brasileiros entendem que os meios de comunicação defendem os interesses de seus proprietários; 32%, os interesses dos que têm mais dinheiro; e 21%, dos políticos. Apenas 8% acha que a mídia está a serviço da população.
Quanto à programação, 43% afirmam não se reconhecerem na televisão e 23% sentem que são retratados com negatividade. Mais da metade avalia que a tevê costuma tratar mulheres, negros e nordestinos com desrespeito. E 61% acredita que os empresários têm mais espaço do que os trabalhadores.
Laurindo Leal Filho afirma que a pesquisa será um divisor de águas na discussão política e acadêmica sobre a democratização da comunicação. “Teremos um antes e um depois desse estudo”, decreta o professor da ECA-USP. “Agora temos dados concretos."
Altamiro Borges avalia que cabe agora aos movimentos sociais encontrarem a melhor maneira de se apropriar dessas informações para trabalhar em prol da democratização. “Estamos saindo do achismo.”
Pedro Ekman, do Coletivo Intervozes, complementa: “Essa pesquisa é um instrumento muito importante. Agora a gente começa a ter bases mais sólidas para o debate público”.

Autor(a): Nilton Pereira

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