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Abadiânia tenta se reerguer de crise após prisão do seu famoso curandeiro

Especial Comentários 25 de abril de 2019

Recentemente, os “gringos” que residem no Município se uniram para fazer serviços que seriam de responsabilidade do Poder Público


Desde a prisão do famoso médium João Teixeira de Faria, o “João de Deus” - preso sob acusações de assédio sexual em dezembro do ano passado - a parte denominada “Abadiânia Velha” do Município enfrenta uma verdadeira crise social e econômica. Nas proximidades da Casa “Dom Inácio de Loyola”, local onde João de Deus realizava seus atendimentos, vários estabelecimentos como hotéis e pousadas, restaurantes, ateliês e lojas de roupas (especialmente roupas brancas) fecharam as portas.
“As vendas da minha loja caíram bastante e, inclusive, estou me mudando para Anápolis para continuar meu negócio por lá”, disse a proprietária de uma loja de roupas que não quis se identificar. Como ela, muitos estão mergulhados em incertezas sobre o futuro e, na Cidade, há certo temor por parte das pessoas em tratarem dessas questões com a imprensa, em razão da grande repercussão que houve sobre o caso no País e, até, no exterior.
A movimentação na casa Dom Inácio - que continua aberta para visitação, mas sem muitos trabalhos de consulta - trazia um fluxo de cinco mil pessoas por semana na Cidade. Número que diminuiu consideravelmente de dezembro para cá. Desde a chegada de “João de Deus”, Abadiânia ficou conhecida mundialmente pelas diversas visitas de fiéis e, principalmente, pessoas que buscavam curas física e espiritual. Muitas eram estrangeiras e, algumas delas, personalidades famosas.
Estima-se que há cerca de mil pessoas afetadas, direta e, indiretamente, pela crise e falta de fluxo na economia local. Isso, sem contar as pessoas que não são cadastradas a algum órgão privado ou público, com base, apenas, na contabilidade de registros de seguro desemprego ativos. O principal setor afetado com a queda do número de pessoas foi o hoteleiro. De acordo com empresários do ramo, foram fechadas cerca de 80 portas, incluindo as casas “clandestinas”, que aproveitavam o movimento para hospedarem os turistas. Os taxistas, também, estão praticamente sem serviço. O turismo tem se mantido - muito menos que antes - com a proximidade da cidade ao Lago Corumbá IV, que recebe centenas de pessoas aos finais de semanas e feriados, e, também, graças à excelente localização de Abadiânia, que fica no eixo central da BR-060, que liga Goiânia a Brasília.
O poder público diz estar investindo para melhorar a estrutura econômica e social do Município. Um dos projetos é o Código Ambiental, que busca viabilizar e facilitar a instalação de empresas na cidade; a realização de eventos que aproveitem a estrutura ambiental nas imediações do lago, além de programas do Sistema S para a qualificação de pessoas.
Mas, a ideia não agrada aos moradores, pois são tratativas de longo prazo e, segundo eles, a cidade precisa de medidas imediatas, já que o seguro desemprego que os afetados recebem está chegando ao fim.
“A cidade está presa com João de Deus. Esse é o sentimento de todo mundo que mora por aqui. E, todos, sentem o impacto, inclusive, membros de igrejas de outras religiões”, disse Taís, que trabalha com a família numa pousada. Ela afirma que Abadiânia é refém de uma má gestão que deixou parte do Município em uma “João-dependência”. Falta iluminação pública, segurança, saneamento, sinalização nas ruas e algumas obras, como a Igreja São Miguel e um novo loteamento de baixo custo, estão inacabadas. A moradora, ainda, afirma que, no último mês, ocorreram dois assaltos a lojas de pedras que causaram um prejuízo milionário.
A redação tentou entrar em contato com o prefeito José Diniz, para saber mais sobre quais medidas estão sendo adotadas, mas sem sucesso. Os moradores têm buscado, por conta própria, cuidar da estrutura de sua região. Os “gringos” - estrangeiros apelidados assim pelos nativos da região - têm se unido para pintarem ruas, fachadas e fazerem consertos em escolas da Rede Municipal e o apelo da população é para que a Prefeitura viabilize, ao menos, tintas para que continuem mantendo a sua cidade com dignidade e para que possam restaurar a esperança.

História do Município de Abadiânia está ligada à tradições e religiosidade
Os responsáveis pelo povoamento da Região foram os habitantes de Corumbá de Goiás, atraídos pela fertilidade das terras para a exploração agropastoril, nas margens do Rio Capivari e do Córrego Caruru. A fundação do povoado se processou em 1874 com a realização de rezas, sob a direção de Dona Emerenciana, primeira moradora do local, onde se originou o núcleo urbano, inicialmente. Em 17 de agosto de 1895, após a realização da romaria, Dona Emerenciana obteve de João José da Maia, Manoel Gomes Ferreira, Joaquim de Souza Cordeiro e outros doação do terreno para a formação do patrimônio, cujo nome inicial foi “Posse”, decorrente do ato natural de posse dos primeiros moradores. Pelo Decreto-Lei Estadual nº 8.305, de 31 de dezembro de 1943, o povoado passou à condição de distrito, do Município de Corumbá de Goiás com a denominação de “Abadiânia”, topônimo em louvor à Padroeira, Nossa Senhora da Abadia, instalado oficialmente em 2 de janeiro de 1944. Com o advento da BR-153 - Belém-Brasília e a má localização da Sede Municipal, decidiu-se a transferência da sede do Município para as margens da citada rodovia, pela Lei Municipal nº 11, de 03 de agosto de 1960, efetivando-se a mudança em 15 de setembro de 1963. A antiga sede retornou à condição de distrito, com a denominação de Posse D’Abadia, pela Lei Municipal nº 67, de 12 de setembro de 1963.

Preso e doente, médium fez fama no Brasil e no mundo
João Teixeira de Faria, o João de Deus, nasceu no vilarejo de Cachoeira da Fumaça, no Estado de Goiás, em 24 de junho de 1942. O médium nunca concluiu seus estudos, não sabendo ler nem escrever até hoje. João de Deus afirma que começou a ter mediunidade ativa aos nove anos, quando era um menino católico avesso ao Espiritismo. Aos dezesseis anos, serviu de médium pela primeira vez na “cura” de outra pessoa. Teria, então, morado em vários estados, até fixar-se em Abadiânia, e fundar a Casa “Dom Inácio de Loyola”, no ano de 1976, onde dizia “receber” bons espíritos que realizam curas através dele, incluindo o fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola.
A casa já recebeu diversas figuras conhecidas nacionalmente e mundialmente, como os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff; Bill Clinton e Hugo Chávez; o psicoterapeuta Wayne Dyer; o humorista Chico Anysio; a apresentadora Xuxa; os atores Marcos Frota e Shirley MacLaine e a apresentadora americana Oprah Winfrey, que trouxe visibilidade mundial para a cidade.
João de Deus sempre foi uma figura ativa na cidade. Participava das reuniões políticas, comícios, eventos municipais e era precursor de alguns projetos sociais, como a Casa da Sopa, que recebe os mais necessitados para se alimentarem e colherem doações no geral.
Em 14 de novembro de 2018, foi decretada sua prisão preventiva e, no dia 16, ele se entregou às autoridades. João de Deus já virou réu em três ocasiões, por violação sexual e estupro de vulnerável. A mulher dele, Ana Keyla Teixeira, também, foi denunciada no crime envolvendo os armamentos, e o filho, Sandro Teixeira, por intimidação das testemunhas. Várias outras denúncias continuam sendo apuradas pelo Ministério Público, não sendo descartado o surgimento de novas ações contra o médium. Hoje, prestes a completar 77 anos de idade, João de Deus se encontra internado no Hospital Neurológico de Goiânia, com uma aneurisma na região abdominal. (Gabriel Bordori).

Autor(a): Gabriel Bordori

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