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A tragédia que abalou Anápolis

Violência Comentários 23 de fevereiro de 2013

População de um dos setores mais carentes da Cidade, ainda busca explicações para o quadro de horror vivido por uma família na madrugada de segunda-feira


Bairro bem afastado do centro, povoado por famílias humildes, em sua maioria, trabalhadores de baixa renda, o Novo Paraíso tem sido, ao longo dos anos, palco de muitos crimes, fato comum para regiões semelhantes. Mais recentemente, o índice de violência tem sido agravado com o consumo, cada vez maior, de drogas, especialmente o crack, de fácil acesso, devido ao preço, ao alcance da maioria dos viciados. São muitos os casos de homicídios, latrocínios e outros delitos, coisas consideradas ‘normais’ em comunidades onde falta quase tudo, principalmente segurança de boa qualidade. O Novo Paraíso é estigmatizado, ainda, por, no passado, abrigar a colônia de portadores do Mal de Hansen, o antigo “Leprosário”. Mas, em todos os tempos, nenhum crime chocou tanto aquela comunidade como o do último dia 18, segunda feira, quando Rogério Lopes dos Santos, 19 anos, com um histórico comprometedor, recheado de passagens pela polícia, uma delas pela acusação de homicídio (crime que teria cometido na comunidade de Santo Antônio) e outra por roubo, além de reconhecido usuário de drogas e encrenqueiro na região, sem motivo aparente matou a avó, dois irmãos e feriu, gravemente, o caçula que até à tarde desta quinta-feira, 21, agonizava entre a vida e a morte, na UTI do Hospital Evangélico Goiano.
Tragédia anunciada
Por conta dos desatinos da vida, Rogério foi criado pela avó, embora tenha pai e mãe. Dona Valdelina, 65 anos, depois de criar os filhos, assumiu, como milhões de outras pessoas neste Brasil, a tarefa de, também, cuidar dos netos. E, eram cinco. Rogério, o mais velho. Todos viviam em uma modesta casa, mantendo-se como podiam, mais à custa do salário de aposentada da matriarca. A história, verídica, mostra que, desde a adolescência, Rogério apresentava comportamento diferenciado. Os vizinhos dizem que ele era ‘problemático’. Não gostava de estudar, não tinha interesse em trabalhar e, logo cedo, caiu no mundo das drogas. Álcool; maconha, merla, crack e outros. Esta vinha sendo sua vida nos últimos anos.
Nas crises de abstinência, ele perturbava a todos, querendo dinheiro para alimentar o vício. Certa vez, foi preso por roubo e, a avó, condoída, se virou como pôde, arranjou recursos para pagar advogado e soltá-lo da cadeia. Rogério nunca se emendou. Tornava-se, cada vez mais, um garoto problema, cheio de confusões, brigas em bares, desentendimentos em família. Era agressivo com os irmãos e com a avó que o sustentava. No bairro, não tinha amigos, não se relacionava com, praticamente, ninguém. Vivia no chamado submundo das drogas, um verdadeiro zumbi.
Não foram raras as vezes em que sua avó recebera advertências de amigos e familiares, sobre seu comportamento. Mas, fazer o quê? Mulher pobre, moradora em bairro periférico, sem recursos, sem socorro. O jeito era conviver com a situação. Polícia não significava qualquer ameaça a Rogério, que já havia se acostumado a ir preso, ficar algum tempo e sair da cadeia.
A tragédia
Foi até que, aconteceu... Na segunda-feira, 18, por volta de nove da noite, ele chegou em casa. Alterado como na maioria das vezes. Havia bebido um ‘carotinho’ (minúsculo barril de madeira) de pinga, fumado um ‘baseado’ (cigarro de maconha) e ‘queimado’ uma pedra (crack), segundo suas próprias palavras. No depoimento que prestou à delegada Marisleide Santos, ele disse que estava “vendo coisas e ouvindo vozes”. Disse que seus irmãos o chamaram de ‘maconheiro’ e que, por isso, ficou muito irritado. Depois, afirmou que não se lembra de mais nada.
Esse mais nada, foi a cena de horror que ele protagonizou. Passava da meia noite, Rogério, completamente alucinado, saiu para o quintal da casa e deparou com uma enxada escorada na parede. Apanhou a ferramenta agrícola e, com ela, iniciou a perversidade que causou arrepios até nos policiais mais experientes, acostumados com cenas de crimes bárbaros.
Primeiro, ele golpeou a avó com certeiras enxadadas na cabeça e pelo restante do corpo. A anciã nem acordou. Em seguida, ele foi ao quarto onde dormiam os irmãos e com um só golpe, matou a adolescente Rosana Lopes, sua irmã, de 12 anos. Para certificar-se de que ela havia morrido, deu mais dois golpes. Logo após, aproximou-se da cama de Romário, seu outro irmão, de 15 anos. Este, também, morreu dormindo, após receber vários golpes com o “olho” da enxada. O último a ser golpeado foi Roger, de 11 anos, que teve o occipital (osso posterior do crânio) esmagado pelas enxadadas. Ele dormia de bruços.
Frieza
Depois de matar a avó, os dois irmão e ferir, gravemente, o caçula, Rogério arrastou os corpos e os jogou em uma cisterna abandonada, que fica nos fundos do imóvel. Teve força suficiente para remover a tampa de concreto e atirou os corpos amontoados. Depois, arrastou a tampa para o lugar de origem. Todavia, uma vizinha acordou com os estranhos barulhos e logo que amanheceu, ligou para um tio de Rogério, pedindo que este fosse à casa, pois suspeitava que algo de grave havia ocorrido. Este tio, ao chegar, deparou com a cena horripilante. Sangue por todo lado, pedaços de corpos espalhados nas camas e no chão e o rastro deixado pelos corpos arrastados e jogados na fossa.
Não havia outro suspeito, se não Rogério. A polícia foi acionada e passou a procurá-lo pelas redondezas.
Rogério foi localizado por policiais militares, com o apoio de um helicóptero trazido de Goiânia. Ele estava a poucos metros da cena do crime, escondido em um capinzal. Trajava, apenas, cuecas, visto que a roupa havia se encharcado de sangue e ele não poderia circular pelas ruas daquela maneira. Estava esperando escurecer, para tentar a fuga. Não deu tempo. Foi preso em fragrante e levado para o Quartel do Quarto Batalhão de Polícia Militar. Depois, foi encaminhado à Polícia Civil. Nas entrevistas que concedeu, ele insistiu em dizer que não se lembrava de nada e, em diversas oportunidades, chorou dizendo-se arrependido. Ele foi recolhido a uma cela do DNARC, na Cidade Jardim.
A psicóloga Eleuza Fernandes disse que o quadro de Rogério é de, pelo menos, psicopatia, aliada a outros problemas causados pelo prolongado consumo de drogas. Segundo ela, na abstinência da droga, o indivíduo pratica atos inaceitáveis, incompreensíveis e inimagináveis. E, assegurou que, como Rogério, muitas outras pessoas, com o mesmo perfil, andam pelas ruas de todas as cidades, convivendo com as famílias e com a sociedade. Para ela, há a necessidade urgente de se criarem políticas públicas mais incisivas para tratarem dessas pessoas, sob pena de se repetirem tragédias como a do Novo Paraíso em Anápolis.

Autor(a): Nilton Pereira

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