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A polêmica sobre o risco do uso do jaleco nas ruas

Geral Comentários 12 de agosto de 2016

Especialistas advertem que este hábito, comum em muitas cidades é altamente perigoso


O jaleco deveria ser um acessório de utilização exclusiva nas unidades de saúde. Apesar disso, nas ruas, bares e restaurantes próximos aos hospitais, o que mais se vê são médicos e enfermeiros desfilando com a vestimenta de trabalho. A prática facilita o transporte de micro-organismos, levando bactérias diferenciadas para o meio externo.

A questão ainda não é um consenso entre os profissionais desta área, mas é uma orientação da Organização Mundial da Saúde que o uso do jaleco seja restrito ao local de trabalho. A médica infectologista Terezinha Leão explica que o avental serve, justamente, para proteger o profissional do ambiente insalubre que é o hospital. Ali estão bactérias multirresistentes, isto é, que poucos antibióticos funcionam contra elas e que são muito mais raras na comunidade.
“A fim de preservar o bem-estar do profissional é que ele veste um jaleco enquanto está sob risco de se expor a esses germes. Saindo do hospital, o avental deve ser rapidamente guardado em um saco plástico, de preferência, para evitar que suje e que outras pessoas menos avisadas possam se expor a um risco desnecessário, entrando em contato com essa flora bacteriana hospitalar” diz ela.
Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, o risco de infecções transmitidas por bactérias nos jalecos é muito maior no sentido do hospital para a comunidade. Mesmo assim, não há uma higienização específica e adequada nos aventais. “Cada um leva o seu para casa e lava como bem entende. Não é rotina que os jalecos de trabalho sejam limpos nos hospitais, onde eles seriam desinfetados corretamente”, conta a médica.
Os germes são uma ameaça, principalmente, para pessoas que tomam antibióticos demais e passam a ser colonizadas por uma flora diferente, mais resistente aos remédios comuns. “Não sei se é do conhecimento de todos, mas já existem, nos hospitais, bactérias resistentes a todos os antibióticos do mercado. Havendo uma infecção, voltamos à era pré-penicilina, onde se tratava as pessoas com colutórios, bismuto, chás medicinais e outras panaceias.", acrescenta Terezinha Leão.
Todas as pessoas são colonizadas por uma flora normal de bactérias seja na pele, na garganta ou no intestino, que não traz danos quando em estado de equilíbrio. O perigo é que os jalecos levam germes que já aprenderam a ser mais resistentes para indivíduos que ainda não estão doentes. “A partir desse contato, se por algum motivo a pessoa depois precisar se internar em um hospital, fazer alguma cirurgia, tratamento dentário ou se tiver alguma infecção banal, o tratamento pode não ser tão simples assim. A infecção tende a ser bem mais grave”, alerta a doutora.
Para a médica, a justificativa da utilização indevida da vestimenta deve-se, muitas das vezes, à pressa, pois os profissionais estão sempre correndo de um emprego para o outro e não têm tempo de tirar o avental. “Por exemplo, onde eu trabalho, é muito frio. Você tira o casaco e coloca o jaleco para trabalhar e fica bem quentinho, tirar o jaleco para fazer o lanche na esquina é incômodo. Os motivos são os mais diversos, mas nada justifica a falta de higiene”, afirma.
Dificuldades no controle
Uma das maiores dificuldades do controle das infecções hospitalares é convencer a todos da importância de medidas simples como a limpeza das mãos e os cuidados com o uniforme na prevenção de doenças graves. A infectologista, que trabalha há 25 anos com o treinamento de profissionais da saúde, tenta conscientizar os companheiros da necessidade da higienização. “Sempre escapa um que não ouviu direito a aula, ou, que não se convenceu da importância dessa medida básica. É importante lembrar que a corrente tem a força no seu elo mais fraco, basta apenas um romper a corrente, que se quebra a cadeia do controle das infecções hospitalares”, assegurou a especialista.
Espírito Santo, Paraná e Rio de Janeiro são alguns dos estados que já proibiram o uso dos jalecos fora do ambiente hospitalar e quem infringe a norma tem que pagar uma multa em dinheiro. Projetos de lei nesse sentido existem, também, no estado de São Paulo e na Bahia. “Não fui eu quem inventou a lei, mas achei bem boa. Creio que, agora que há multa por sair com os aventais para a rua, talvez as pessoas percebam o tamanho da importância desta medida”, conclui a médica.

Autor(a): Da Redação

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