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A mulher barbuda

Boa Prosa Comentários 09 de julho de 2010

Ela morava no setor onde, hoje, fica a Matriz de São Sebastião. Naquele tempo, década de 50, era uma região praticamente isolada em Anápolis, visto que a Cidade crescia, mais, para os lados do sul e do leste.


Ela morava no setor onde, hoje, fica a Matriz de São Sebastião. Naquele tempo, década de 50, era uma região praticamente isolada em Anápolis, visto que a Cidade crescia, mais, para os lados do sul e do leste. Seu nome, ao certo, quase ninguém sabia. E, nem ela fazia questão de dizer. Todos a chamava de “Dona França”, muito embora alguns assegurassem que o correto fosse Francelina.
Até aí, nada demais. Naquela época, a curiosidade das pessoas era mais contida e os comentários circulavam, apenas, de boca em boca, por cima dos muros, nos encontros fortuitos, ou, nas poucas vezes em que as “comadres” se juntavam, principalmente na missa de domingo. Ninguém, jamais, soube detalhes da vida de “Dona França”. De vez em quando, ela sumia. Ficava um, dois, até três meses ausente. Retornava e não contava a ninguém por onde andara e o que fizera. Era de pouca conversa e se limitava a cuidar da pequena casa, simples, mas sempre bem limpa. Ela própria se encarregava de capinar e cortar o mato ao redor.
As pessoas de sua vizinhança nunca souberam, também, como ela ganhava a vida. Comentários havia muitos. Seria ela benzedeira; seria ela dona de terras fora de Anápolis, ou viajava, de vez em quando para buscar dinheiro de parentes que, supostamente, moravam em cidades como Araguari e Uberlândia, em Minas Gerais. Mas, de concreto, mesmo, ninguém dava notícia. Ela, simplesmente, chegava e saía.
De seus hábitos estranhos, tinha um que chamava a atenção. Esporadicamente, “Dona França” entrava em uma venda, pedia uma dose de pinga, bebia de uma só vez, pagava e ia embora. Sem dar muita conversa a ninguém. Seu passado, seu presente e, principalmente, seu futuro, não eram do conhecimento de ninguém. Nem a sua idade as pessoas se ariscavam a calcular.
Mas, uma coisa diferenciava “Dona França” das outras mulheres. E por conta desse detalhe, a meninada morria de medo dela. É que aquela estranha mulher cultivava longos e esparsos fios de cabelo no queixo. “Dona França” era uma mulher barbuda e não raspava a barba.
Um dia, entretanto, ela desapareceu. Simplesmente desapareceu e ninguém mais soube o que foi feito dela. Nem quem herdou a casinha onde ela morava. Histórias verídicas de Anápolis.

Autor(a): Nilton Pereira

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