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A inclusão que combate o preconceito. Os bons exemplos daqueles que têm um olhar diferente para os portadores de deficiência

Especial Comentários 30 de novembro de 2015

Para celebrar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, o Jornal Contexto traz, nesta reportagem especial, um apanhado do trabalho de instituições que fazem a diferença em mostrar para a sociedade a importância de vencer preconceitos e do amor ao próximo


Rosto angelical e sorriso largo. Aos 26 anos, Jhéssycka Nattasha pode se considerar uma pessoa vitoriosa. É formada em Design Gráfico e trabalha no Departamento de Comunicação de uma grande empresa de Anápolis. Ela tem carteira de habilitação e dirige o próprio carro. A diferença de Jhéssycka para os outros três designers que trabalham no departamento é apenas um: ela não escuta.
A deficiência auditiva está presente na vida de Jhéssycka desde que ela era ainda um bebê. Tinha, apenas, oito meses quando recebeu a dose errada de uma vacina e perdeu completamente a audição. Hoje, ela lida bem com a deficiência, mas nem sempre foi assim. “Quando eu era criança, tinha vergonha de ser surda. Eu achava que não tinha outras crianças surdas como eu. Depois, aos oito anos, comecei a aprender LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais) e fiquei muito feliz porque conheci outros surdos iguais a mim”, conta.
Quando é perguntada se já sentiu preconceito, ela responde que sim e muito. “Às vezes, as pessoas me chamavam de mudinha e eu não gostava disso. Sou, apenas, surda. Quando criança, as pessoas riam por eu ser surda e, também, falavam mal de mim. Ninguém me respeitava e isso me magoou muito. Mas, agora, isso mudou. As pessoas sabem o que é a cultura surda”, conta.
A falta de audição atrasou um pouco o desenvolvimento de Jhéssycka. Ela diz que começou a aprender com mais facilidade as coisas na adolescência. “Com muito esforço, comecei a entender melhor o significado das palavras e aprendi a ler lábios. O surdo é capaz de fazer de tudo. Ser surdo apenas cria algumas barreiras que vamos superando com o tempo”, diz com orgulho.
E superação é a palavra que define a vida de Jhéssycka. “Eu me considero vitoriosa. Sou formada em Design Gráfico e também especialista em Docência Universitária. Tenho uma família maravilhosa, que sempre fez tudo pelo meu bem. Eles me aconselham, têm paciência, me ensinam e me compreendem. Foi Deus quem me deu esta família maravilhosa”, conclui.
Jhéssycka trabalha em uma instituição de ensino superior e faz parte do sistema de cotas da empresa. A Lei de Cotas entrou em vigor em julho de 1991 em nível nacional e obriga toda empresa a ter em seu quadro de funcionários dois por cento de portadores de necessidades especiais quando atingir o número de 100 empregados; três por cento de 201 a 500 funcionários; quatro por cento de 501 a 1000 e, a partir daí, cinco por cento. No caso de descumprimento da lei, a empresa poderá ser multada.
“Eu gosto muito da Lei de Cotas, porque o deficiente pode se tornar independente e conviver com os ouvintes. Isso ajuda a desenvolver e também ajuda a acabar com o preconceito”, aprova Jhéssycka.

Inclusão
A entrevista com a designer foi feita com perguntas e respostas digitadas e com a ajuda de um intérprete de libras.
Outro exemplo é o Colégio “Couto Magalhães” que tem, hoje, cerca de 30 alunos com diversos tipos de deficiências. A escola é inclusiva desde quando a terminologia nem era usada ainda. “Conheço a escola desde os anos 70 e já, naquela época, havia alunos com deficiências ou dificuldades especiais. Inclusive pelo caráter cristão de sua filosofia de ensino ao longo dos anos”, explica a diretora Aélia Cavalcante.
Ela conta que nos últimos 10 anos a procura, por parte de pais de alunos com alguma síndrome ou transtorno, aumentou. “As campanhas do governo e as mídias contribuíram de forma incisiva para esse comportamento. Com a força dos Direitos Humanos, o respaldo do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e de outras formas de direitos, as famílias com crianças especiais foram sendo encorajadas pela própria sociedade a procurarem ajuda para os filhos e, ao mesmo tempo, sendo trabalhadas para perderem o ‘medo’ da exposição pública de suas particularidades”, afirma.
A escola tem hoje alunos com Síndrome de Down; Síndrome de Asperger; Autismo; Deficientes auditivos, visuais e físicos. E muitos alunos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade - TDAH.
“Para e escola é um privilégio participar da formação desses alunos. Tornamos-nos mais humanos, mais sensíveis e mais coparticipantes do desenvolvimento humano. Sem falar, é claro, da responsabilidade social e cristã de cada um de nós”, diz Aélia Cavalcante.
A diretora conta que não há problema na convivência entre os alunos. “Nenhum aluno reclama ou critica outro por ser portador de necessidades especiais. Isso é coisa de adulto que ainda não aprendeu sobre empatia”, diz.
“O que nos move é a paixão pela possibilidade de tornar a vida dessas pessoas mais feliz. Dar oportunidade a alguém em condições de alguma limitação é cristão e muito nobre. Sei o que isso custa para a escola e para cada um de nós, mas posso garantir que é uma das formas mais lindas de se ver o resultado do que chamamos de Educação”, finaliza Aelia Cavalcante.

27,6% da população local declara ter alguma deficiência
A inclusão é cada vez mais necessária ao se pensar, além do combate ao preconceito, no número de pessoas que apresentam algum tipo de deficiência. Em Anápolis, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 92.660 pessoas residentes declararam ter uma das deficiências investigadas pelo Instituto, o que representa 27,69% da população.
O grau da deficiência, seja ela visual; auditiva, motora e mental/intelectual, também foi avaliado. No total, são 52.268 portadores de alguma deficiência visual; 15.695 deficientes auditivos, 20.859 portadores de deficiência motora e 3.838 portadores de deficiência mental\intelectual. Conforme a pesquisa, as pessoas completamente cegas somam 670; as que têm grande dificuldade em enxergar, 8.413 e as que possuem apenas alguma dificuldade, 43.185 pessoas. As pessoas com deficiência auditiva grave somam 550; as que revelaram ter problema moderado, 2.944 e as que têm pequena dificuldade em ouvir, 12.201 indivíduos. Ainda, segundo o IBGE, 1.078 têm deficiência motora grave; 5.745 têm grande dificuldade e 14.036, alguma dificuldade. As pessoas com deficiência mental\intelectual somam 3.838, o maior registro entre os grupos investigados.

Apae: pioneirismo e atendimento especializado
Uma das unidades mais conhecidas no país e pioneira em Anápolis é a APAE. Só na Escola “Maria Montessori”, segundo dados da instituição, são mais de 600 alunos, em diversos níveis de comprometimento. Mas, a APAE Anápolis conta, ainda, com outros projetos oferecidos à população, dentre eles, o Serviço Especializado em Reabilitação Intelectual, que atende a pessoas com síndromes diversas, lesões cerebrais, Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) ou suspeita de (TEA), aproveitando suas potencialidades e promovendo sua integração à vida comunitária.
Por mês, são realizados cerca de 500 atendimentos nas mais diversas especialidades como psiquiatria; neuropediatria; psicologia; musicoterapia; fonoaudiologia; fisioterapia; terapia ocupacional; psicopedagogia; pedagogia, nutrição e serviço social. A família do aluno, também, é atendida pelo Serviço de Reabilitação Intelectual.
Há, ainda, o “Psicoeducação”, onde os profissionais da área de psicologia e musicoterapia trabalham com as famílias dos usuários a compreensão do diagnóstico e suas características, auxiliando, assim, o processo de aceitação e reabilitação do paciente.
“Mães que Cantam” é um projeto que trabalha o vínculo entre mãe e o bebê que recebe o diagnóstico de deficiência, tendo o acompanhamento dos setores de psicologia e musicoterapia.
Outro projeto que se destaca na unidade é o Grupo de Orientação e Treino de Pais, em que profissionais das áreas de fisioterapia e fonoaudiologia atuam orientando os pais sobre manobras terapêuticas a serem realizadas com os filhos em casa. O objetivo é dar andamento ao tratamento em casa, uma vez que o tempo de estimulação na unidade é curto e faz-se necessária a continuidade dessa estimulação no dia a dia dentro do ambiente domiciliar.
Segundo a coordenadora do Serviço Especializado em Reabilitação Intelectual, Paulyane Cristine Oliveira, é importante que os pais e cuidadores estejam atentos aos sinais que possam indicar deficiência. “Muitas das vezes pode ocorrer de sinais passarem despercebidos pelos pediatras que realizam o acompanhamento médico de bebês e crianças, ou, dos pais não buscarem o acompanhamento pediátrico para seus filhos, e o início do tratamento acontecer depois do indicado”, pontua a coordenadora.

Associação dos Deficientes e CEMAD
Outra instituição que trabalha com portadores de deficiência é a Associação dos Deficientes de Anápolis - ADA. A Associação foi fundada em 1993 e conta, hoje, com 1200 associados. Através do esporte, a autoestima do portador de deficiência é resgatada. “Os atletas se sentem muito melhor praticando o esporte. Temos atletas que competem e outros que só praticam mesmo”, explica um dos coordenadores da Associação, João Pereira Nascimento.
O basquete em cadeiras de rodas é realizado através de uma parceria com a Secretaria Municipal de Esportes e a equipe participa de competições estaduais e nacionais. “Em outubro, participamos de uma competição em Niterói, no Rio de Janeiro, e fomos campeões da segunda divisão. Isso pra nós é muito gratificante”, conta João.
Outro serviço público especializado é o Centro Municipal de Atendimento à Diversidade ‘Maria Onilza Borges’ - CEMAD. 385 crianças da rede municipal e da comunidade são atendidas pela instituição, de acordo com a diretora Valdilea Prado Rezende. “Nós realizamos atendimento a pessoas de qualquer idade que necessitem de acompanhamento pedagógico”, explica a diretora.
No CEMAD não acontece atendimento clínico, como em outras instituições especializadas. O foco é o atendimento pedagógico na educação inclusiva. Além de portadores de deficiência, o Centro também ajuda na capacitação de profissionais que trabalham com crianças especiais.
“Aqui, os profissionais recebem orientação e instrução pedagógica para que possam inserir o deficiente no convívio social”, afirma Valdilea Prado. Essa assessoria pedagógica é importante, principalmente, para que o aluno receba o atendimento de qualidade na instituição de ensino que frequenta.
Além desse apoio pedagógico, o CEMAD oferece curso de BRAILLE e LIBRAS para a comunidade. Aprendendo a se comunicar com o deficiente, ele se sente mais integrado à sociedade e, consequentemente, mais aceito e capaz. “Acho que as pessoas têm que aprender que não precisamos só de ajuda, mas, também, precisamos conviver. Nós superamos tantas coisas, porque as pessoas ‘normais’ não podem, apenas, aprender a se comunicar com a gente?”, questiona Jhéssycka Nattasha.
E é assim, convivendo em sociedade, se comunicando, fazendo parte de escolas e empresas, que as pessoas portadoras de deficiência querem comemorar em 03 de dezembro, o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

Trabalhando com autistas
O Colégio Estadual Zeca Batista atende, nos períodos matutino e vespertino, a 20 alunos autistas. Uma equipe formada por 14 profissionais contribui para realizar projetos e atividades de educação inclusiva, oferecendo aos estudantes portadores de autismo a oportunidade de serem incentivados ao máximo em sua potencialidade. O trabalho pedagógico inclui jogos, brincadeiras e, até, atividades de culinária.
O Jornal Contexto apoia o Colégio. Recentemente, o periódico doou um pula-pula para que os alunos possam realizar sua recreação. O Porto Seco Centro-Oeste, também, é um apoiador. Nas programações em cinemas da Cidade, planetário, sempre que há a necessidade, a empresa fornece o transporte dos alunos.
O Rotary Clube é parceiro do Colégio, doando recursos financeiros arrecadados em ações internas. Conforme a diretora Simone Pescara de Freitas, este apoio é importante para a execução dos projetos voltados aos autistas.
Simone de Pescara, diretora da unidade, cita o Projeto Re-Fazer como uma das atividades de ensino voltadas aos alunos autistas do Colégio Estadual Zeca Batista. Como alguns estudantes possuem, além do autismo, outras deficiências, como cegueira e Síndrome de Down, o trabalho precisa ser diversificado para estimular o aprendizado. Alguns projetos são realizados em conjunto com instituições de ensino, como a Universidade Estadual de Goiás, que fornece alunos por meio do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência; e doa jogos para o Colégio.

Casa Joana: caçula entre as instituições

Após ter uma filha com síndrome de down, Juliana Francis resolveu dedicar também o seu tempo para outras crianças e mães que enfrentam a mesma realidade que a sua e fundou há um mês, a Casa Joana. A instituição, que leva o nome de sua filha, é voltada para a inclusão social, principalmente, de pessoas mais carentes que não têm como custear tratamentos especializados.
Fundada em 2013, a Casa Joana- localizada na Vila Santa Maria de Nazareth- é uma instituição filantrópica que desenvolve, entre outras coisas, o programa de Estimulação Precoce com crianças de zero a três anos oferecendo individualmente, atendimento com Fonoaudióloga, Pedagoga e Fisioterapeuta, Terapia Ocupacional e Psicologia Familiar.
A finalidade é favorecer o desenvolvimento de suas potencialidades nas áreas motora, cognitiva, emocional, de fala e linguagem, facilitando o acesso ao ensino regular. A família participa ativamente de todo processo de estimulação e deve continuar o trabalho em casa conforme orientações dos profissionais.
“Nós queremos atender pessoas com Síndrome de Down e suas famílias, criando condições de desenvolvimento global para que elas assumam uma participação efetiva na sociedade”, explica a fundadora da instituição.

Autor(a): Ana Cláudia Oliveira

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